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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

20 Coisas Para Fazer no Imbolc

Decidi reunir uma listinha básica de coisas que vcs podem fazer no Imbolc, seja ritualisticamente ou não, pois a vida da bruxa é Sagrada!


1. Usar uma coroa de flores (naturais, se possível) em honra a Deusa Jovem;
2. Vestir-se de branco, simbolizando a pureza da Deusa menina;
3. Acender velas/fogueira simbolizando o Fogo Sagrado de Brighit;
4. Tomar um banho de ervas de purificação;
5. Fazer uma cerimônia (ou não) de lava-pés com ervas de purificação;
6. Fazer a varredura da casa com vassoura de ervas (ou com a vassoura que vc tiver em casa) intencionando a purificação das energias;
7. Fazer uma cruz suástica ou de três braços com palha de trigo, junco ou capim (dá pra fazer com lascas de bambu também), pode usá-la pendurada na porta de casa, do seu quarto ou em algum local especial como proteção;
8. Fazer uma boneca de palha (pode ser de milho, trigo ou até palha da costa) ou lã representando Brighid;
9. Fazer a "cama de Brighid" para a sua boneca de palha/lã;
10. Fazer uma procissão com velas;
11. Visitar uma nascente ou poço e lá fazer suas orações e pedidos (pegue um pouco da água para abençoar depois);
12. Colocar fitas verdes ou pedacinhos de tecido de roupas suas ou de uma pessoa que esteja precisando de cura pendurados em uma árvore frondosa (recolha na manhã seguinte com a imantação do orvalho);
13. Fazer seus próprios pães;
14. Oferendar pães, cerveja, hidromel, leite, grãos, mel e/ou água pura;
15. Meditar sobre o que você precisa liberar e deixar ir;
16. Meditar sobre o que você deseja;
17. Queimar uma lista de pedidos no fogo (vela/fogueira/caldeirão);
18. Separar coisas que não lhe sirvam mais para doação;
19. Fazer iniciações e/ou dedicações;
20. Ficar em casa no aconchego do lar e da família, e se possível fazer uma "ceia" juntos agradecendo por esse momento e pelo Fogo Sagrado que nos acalenta.

É isso, pessoal, essa lista é sugestiva e focada na tradição Celta e no culto a Deusa Brighid, mas algumas coisas podem ser adaptadas com respeito conforme a sua tradição desde que se atenha à egregora da natureza e do momento energético em que estamos.

*Não entrei em detalhes sobre algumas coisas como a "cama de Brighid" pois vcs podem encontrar pesquisando no Google, a lista serve apenas para dar ideias.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Stregheria ou Stregoneria, A Bruxaria Italiana

Imagem encontrada na internet supostamente representando Arádia, filha da Deusa
Diana, uma das figuras centrais do culto Strega pela vertente de Raven Grimassi.

Introdução Histórica


Muitos não conhecem estes nomes, mas a Stregheria/Stregoneria está muito presente no imaginário popular brasileiro, especialmente porque tivemos uma intensa imigração italiana no Brasil e muitos de nós são descendentes diretos ou indiretos de italianos, (já conheceu alguém que chamava a avó de “nonna”?) além de convivermos com essa cultura inserida aqui há anos, na pizza, na macarronada, no panetone, até fazemos parte de uma mesma família linguística, o latim.

Mas além da influência italiana em específico, temos a influência portuguesa devido aos nossos invasores (não me apetece usar o termo colonizador), não que ambos sejam iguais, mas entendam que a República Italiana é relativamente nova, e muitos povos diferentes viveram na região e nas proximidades, até mesmo celtas! Na arquitetura portuguesa, por exemplo, há muitas referências italianas, e podemos dizer que a Europa Medieval toda era bem parecida, basta pensar no tamanho da Europa e dos seus países e fazer um comparativo com o tamanho do Brasil e seus estados, há semelhanças nas culturas, tanto que há um mito, A Bruxa de Évora (existem livros sobre ele) onde se narra a história de uma sacerdotisa da Deusa Diana na cidade de Évora, Portugal. Até hoje existe um templo na cidade que supõe-se ter sido o Templo de Diana, claro que há posições contrárias afirmando que o templo era erigido à César, o imperador, mas há evidências como esse mito, e também a descoberta por arqueólogos de que o templo abrigava espelhos d’água, muito comum no culto a Diana Nemorensis.

Mais na região norte e nordeste do Brasil surgiu uma religião sincrética que misturava elementos de pajelança cabocla, cultos nativos africanos e magia europeia, é o chamado Catimbó, além dos elementos cristãos que também a influenciaram e muitas práticas comuns da magia popular europeia (também comuns à Stregheria), como o uso da arruda, do pentagrama, entre outros.

Muitas práticas de benzimento hoje conhecidas têm relação com o Catimbó, e é nelas que em grande parte encontramos os elementos Stregas, como a ideia de “mau-olhado”, uso de amuletos com pimenta, sal grosso, os encantamentos e até as maldições.


A Divisão entre Stregheria e Stregoneria

O autor Raven Grimassi que ficou conhecido por popularizar sua vertente da Stregheria defende a teoria de que ela seja um culto ancestral, ele restringe essa ligação ao povo etrusco, que diga-se de passagem foi apenas um dos povos que habitaram a península itálica, foram cerca de 5 povos diferentes por 40 mil anos, embora o povo etrusco seja autóctone (nativo da região) eles tiveram contato e possivelmente miscigenação com esses outros povos. Então Grimassi propaga o culto com a crença principal no casal divino Diana e Dianus (suposta referência do Deus e da Deusa Wiccanianos?) e na figura de Arádia, a filha “humana” do casal, que encarnou para ensinar a bruxaria para libertar o povo da opressão, ele coloca a tradição como uma ordem secreta que perdura desde o período neolítico, e o mesmo difere-o da Stregoneria, como se esta última desse nome às práticas de magia popular, falando a grosso modo, marginalizando-a.

Por outro lado existe uma antropóloga, Sabina Magliocco que refutou algumas de suas ideias sobre a Stregheria/Stregoneria, em especial essa divisão, colocando a vertente de Grimassi como um culto neo-pagão influenciado pela Wicca. Ela defende que a Bruxaria Italiana não é sistematizada e nem hierarquizada conforme o proposto pela vertente de Grimassi, ela define a Stregheria como magia vernacular, ou seja, regional e ligada ao folclore e crenças locais, mais sobre isso vocês podem ler num artigo do blog Stregheria Prática que vou deixar o link no final do texto como referência. Basicamente as palavras Stregheria e Stregoneria provavelmente têm a mesma origem etimológica e trata-se apenas de uma variação do termo.

Com certeza esta informação não invalida a totalidade da vertente propagada por Grimassi, mas nos traz um bom filtro da mesma, e acaba por romper com preconceitos, especialmente com relação ao Cristianismo, muito comum nas práticas populares.


Conclusões Pessoais

Sob esta ótica, a Stregheria está mais próxima de nós do que imaginamos, pensando nas nossas benzedeiras, no Catimbó, nas simpatias com santos católicos... É a magia do povo. Ainda assim eu acredito no culto antigo a Diana e Dianus, e também no mito de Arádia, mas como apenas uma PARTE da Stregheria. Como este sistema me surgiu por meio de Diana quando esta se apresentou em minha vida, eu realmente sinto que devo considera-los, mas não os vejo como “O Deus” e “A Deusa” como numa visão Wiccaniana, apenas como Deuses do Panteão Etrusco que tiveram influências de outras culturas e sistemas magísticos. E porque tive contato também com Arádia, e a ideia de uma “salvadora” feminina é muito sedutora para uma mulher que tem o foco de seu culto no Sagrado Feminino como eu, e que também procura trabalhar contra a opressão atual, então creio que Arádia teve seus motivos também para adentrar a minha vida, assim como todos os Deuses e entidades os têm.

Arádia pode ter sido uma pessoa extremamente excepcional (como Jesus é para os cristãos), ou talvez fosse apenas uma mulher e bruxa à frente do seu tempo, uma pessoa revolucionária (o que eu suponho para Jesus também), seu nome significa “a que brilha”, ou “a que irradia”, podendo ser mais um título sacerdotal do que um nome próprio, embora a maioria dos nomes próprios derivarem também de títulos qualitativos em línguas estrangeiras, o meu mesmo, Camila, é latino e significa “mensageira de Deus” ou “assistente cerimonial pagã” rs, além de ser o nome da filha de Métabo na mitologia romana, uma criança que fora consagrada à Deusa Diana devido a um fato milagroso. Então Arádia pode ter sido apenas uma sacerdotisa de Diana e Dianus, mas meu contato com ela ainda não foi o suficiente para compreendê-la como entidade ou Deusa, mas ela tem muita sabedoria e é uma mulher séria, justa e incisiva, o que ela é não importa tanto, se um espírito ou uma Divindade, mais importa a reverência e a fé que podemos dedicar a ela e criar uma relação de amizade e parceria em nossa vida e em nossas práticas mágicas.

Gente, STREGA É BRUXA, simples assim, praticar a Stregheria é praticar os sistemas de magia e bruxaria de origem italiana, seja ela popular, ancestral ou neo-pagã!

Referências:
http://stregheriapratica.blogspot.com.br/2010/06/bruxaria-italiana-diferentes-conceitos.html

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A Roda do Ano para o Xamanismo

Imagem: Pedra do Sol - Calendário Asteca.

A Roda do Ano é popularmente conhecida no meio pagão como um conjunto de celebrações sazonais de origem Celta/Druida e que marca especialmente as estações do ano (solstícios e equinócios), ela representa principalmente o movimento da Terra ao redor do Sol, por isso são celebrações consideradas solares, também são chamadas de Sabás ou Sabbaths.

Todo esse movimento da Terra ao redor do Sol é representado por um mito no qual a Deusa é representada principalmente pela Terra e o Deus pelo Sol, então esse movimento ao longo de um ano resumido em nascimento, fertilidade e morte é a história desses Deuses.

Imagem: Roda do Ano Celta com referências astrológicas.

A Deusa dá a luz no Solstício de Inverno ao Deus Menino, A Criança Prometida. Na Primavera o jovem Deus e a Deusa estão férteis e fazem amor. O verão marca a maturidade dos Deuses e o consequente sacrifício do Deus representando a colheita. Então no Outono a vegetação começa a morrer, o Sol está se distanciando, o Deus está indo ao mundo dos mortos, e finalmente morre. E a Deusa então vive seu luto em sua face anciã, para depois voltar a dar a Luz ao Deus Menino novamente no Inverno. É o ciclo eterno da natureza, tudo vêm da Mãe e tudo a Ela retorna.

Esse mito é difundido como sendo de origem Celta/Druida, no entanto grande parte das civilizações celebravam as passagens da natureza (talvez com outros mitos, mas há semelhanças que podem ser notadas nos mitos de Jesus, Hórus, Mitra, Krishna, por exemplo, entre outros), especialmente os povoados agrícolas, pois estes ritos faziam parte de um conjunto de crenças antigas anímicas que garantiriam o sustento desses povos. Então as datas dos ritos dependiam totalmente da sazonalidade de cada região, por isso não vou entrar em detalhes sobre datas e hemisférios, pois mesmo dentro de um mesmo hemisfério o movimento da natureza varia e há muito material online e em livros que oferece datas e adaptações, mas a melhor data para celebrar-se os Sabás, sob o ponto de vista Xamânico, seriam as datas que correspondem ao ciclo da natureza local.

Mais do que como uma crença, a sazonalidade é parte do estilo de vida Xamânico e por isso é tão importante celebrar e ritualizar estas passagens, pois no Xamanismo o ser humano interage profundamente com a natureza que o cerca como parte essencial dela. A maioria de nós acaba seguindo o modelo e nomenclatura Celtas menos por identificação cultural e muito mais por ser o mito mais conhecido e mais fácil de encontrar informação, e também pelo fato de que Xamanismo não é algo que se restrinja a uma cultura específica ou outra, mas o próprio culto à natureza independente de nacionalidade, mas para fins informativos, sabemos que há os Sabás Judaicos, as Treguendas Stregas (Italianas de origem Etrusca), entre outras celebrações sazonais das quais não tenho conhecimento dos nomes, mas sei que existem, que são as Egípcias (encenação do mito de Ísis e Osíris, por exemplo), Gregas (Mistérios Eleusinos, por exemplo), Indianas (Diwali como festival das luzes, o Radhastami como Primavera e o Janmashtami como Natal, por exemplo), Maias, Guaranis, etc.

Imagem: Roda do Ano Strega - Treguendas.

Imagem: Roda do Ano Judaica.

Por fim, concluo que a celebração da Roda do Ano, seja com o mito Celta ou não, é uma prática essencialmente Xamânica que está para além da crença cultural em Divindades x ou y, mas representa uma verdade espiritual sobre a própria natureza, uma lei natural que se adapta e se molda a cada região, é parte da Visão em Teia e é um macrocosmo da nossa existência: vida-morte-vida.

domingo, 29 de outubro de 2017

Reconstruindo a Diana Etrusca

Este é o resultado do meu estudo e pesquisa sobre a Deusa Diana, que a mim, na minha experiência pessoal, me pareceu muito mais amorosa e abrangente do que se propaga sobre a mesma.


Imagem: Luna, Karl Schweninger.

Bem sabemos que muitas das mitologias antigas de Deusas foram deturpadas e adaptadas ao patriarcado, uma delas foi a de Diana, a apropriação romana de um antigo culto de origem etrusca de uma Deusa Tríplice que se divide em Tana (Deusa do Universo ou Deusa Estrela), Fana (como Fauna, Deusa da Terra e dos Animais) e Jana (Deusa da Lua), ainda cultuada pela Stregheria, a Bruxaria Tradicional Italiana.

Os etruscos foram um povo de aldeões que viveram na antiga península itálica, estudiosos sugerem que estes teriam sido mesmo nativos daquelas terras e não imigrantes ou nômades, pois sua língua e cultura eram bem distintas e de difícil associação às de outras regiões, estes foram completamente dominados pelos Romanos aproximadamente em 270 a.C. Era uma sociedade que ainda valorizava o papel da mulher, dando a ela espaço nos banquetes, reuniões, jogos e espetáculos, e não retirando dela o seu nome ao casar, tudo isto obviamente era muito mal visto pelos bélicos e machistas romanos.

Antes de dar continuidade, exponho aqui o antigo mito do Dia de Tana, ou para os romanos, simplesmente o episódio do Banho de Diana:


"La Giornata di Tana" ou O Dia de Tana (O “Beltane” da Stregheria)
 
"Celebração do retorno da Deusa ao mundo. Celebração da vida e plenitude da fertilidade.

Imagem representando a Deusa da Natureza e o Deus de Chrifes em união.
Desconheço o autor.

 E aconteceu que Tana desejava a Luz do Mundo e, para Ela, muitos filhos, Ela viajou para o mundo e foi recebida em grande festa. Tana viu o esplendor do novo Deus enquanto Ele atravessava os céus, e Ela o desejava. Mas a cada noite, Ele voltava para o Reino Oculto e não podia ver a beleza da Deusa no céu noturno.

Então, uma manhã, a Deusa surgiu e banhou-se nua no lago sagrado de Nemi, quando Deus surgiu do Reino oculto. Então os Senhores das Quatro Direções apareceram para Ele e disseram: "Eis a doce beleza da Deusa da Terra". Ele olhou para Ela e foi atingido com a Sua beleza, então Ele desceu sobre a Terra sob a forma do grande cervo.

"Eu vim para observar o seu banho", disse Ele, mas Tana olhou para o cervo e disse: "Você não é um cervo, mas um Deus!" Ele respondeu: "Eu sou Kern, Deus da Floresta. No entanto, enquanto eu estou em cima do mundo eu toco também o céu e eu sou Lupercus, o Sol, que bane a Noite dos Lobos. Mas, além disso, sou Tanus, o primogênito de todos os Deuses ". 
 
Tana sorriu e saiu da água em toda a beleza dEla. "Eu sou Fana, Deusa da Floresta, ainda assim, enquanto estou diante de você, sou Diana, Deusa da Lua. Mas além de tudo isso eu sou Tana, nascida de todas as Deusas! "  
Tanus a pegou pela mão e juntos andaram nos prados e nas florestas, contando histórias de mistérios antigos. Eles se amavam e eram um, e juntos governavam o mundo. No entanto, mesmo em amor, Tana sabia que o Deus logo passaria para o Reino Oculto e a Morte viria ao Mundo, quando então ela deve descer e abraçar o Senhor das Trevas, e suportar o fruto de sua União."

(Tradução adaptada por Vandana Shakti)
Fonte: https://sonocarina.wordpress.com/tag/blog-entry-la-giornata-di-tana-tanas-day-may-1st/


Este que acabaram de ler é supostamente o mito original. O mito deturpado quando os romanos apropriaram-se do culto de Diana conta que um príncipe chamado Actéon viu Diana, a Caçadora a banhar-se nua em um lago junto de suas ninfas, ocasião em que todas tentaram escondê-la, representando vergonha diante da exposição da nudez, conta-se que esta transformou-o num cervo e que em seguida o mesmo foi devorado por cães (animais associados à Diana). Em verdade, Diana é Fana/Tana, e este encontro representa a união da Deusa da Terra com o Deus das Florestas representado aqui pelo mortal Actéon.


Imagem: O Banho de Diana, Noel Nicolas Coypel.

É importante mencionar que o culto romano à Diana também se fundiu ao culto da Deusa grega Ártemis, o que conferiu a Diana atributos quase que exclusivamente guerreiros, tais como a castidade, o isolamento e a ira, por isso o pudor com a exposição da nudez no episódio do banho. O lago em que Tana se banha no mito original é o lago Nemi, onde Diana fora cultuada também pelos romanos. E a última associação entre ambos os mitos é o fato de existir um aspecto do Deus etrusco com o nome de Actaeon (semelhante ao romano Actéon) como o Deus de Chifres da Floresta.

Fica clara então a transformação da Deusa Diana de uma etrusca cultuada por aldeões como uma divindade associada à natureza, à Lua e às estrelas, tendo uma celebração sazonal de fertilidade e união amorosa com o seu Divino Masculino, ou seja, uma Deusa complexa e multifacetada, como o é o Feminino, em uma Deusa solitária, casta, que se recusa o amor e que tem certo gosto pela violência, uma Deusa (re)criada por homens, obviamente.

É preciso neste momento de despertar do Sagrado Feminino buscar as origens, os verdadeiros mitos, afim de sanarmos as feridas deixadas pelo patriarcado que diminuiu até mesmo o Poder das nossas Deusas.


Referências:
O Livro de Ouro da Mitologia - Thomas Bulfinch
https://super.abril.com.br/historia/a-historia-dos-etruscos-a-cultura-que-roma-destruiu/
https://dezmilnomes.wordpress.com/2017/06/06/a-grande-senhora-tana/

sábado, 28 de outubro de 2017

Arquétipos x Divindades

Imagem ilustrativa. Representa o Deus Krishna revelando-se em sua forma complexa e transcendente para o guerreiro Arjuna, cena do épico indiano Bhagavad-Gita.

Atualmente com a popularidade evidente da Psicologia Junguiana e de terapias complementares integrativas, muito do que se encontra na internet e em livros sobre Deuses e Deusas os trata do ponto de vista arquetípico, o que não é de todo ruim, pois os arquétipos enquanto facetas de nossa própria psique e inconsciente coletivo da humanidade são sim importantes para a cura emocional e o equilíbrio psíquico do ser humano, tornando-o mais completo, no entanto para a vivência ritualística a "utilização" das Divindades como arquétipos é problemática.

O problema do arquétipo é que a sua utilização como forma de definição de uma Divindade acaba “encaixotando” as Divindades, sistematizando-as e dividindo-as por suas principais atribuições: ex.: Deusa do Amor, Deus da Guerra, Deus da Fertilidade, e assim por diante. Estas explicações funcionam muito bem sob o olhar da Psicologia e atendem às suas necessidades, no entanto sob o olhar espiritual as explicações são muito rasas, pois as Divindades são muito mais complexas e não poderiam ser tão sistematizadas, por isso acaba-se perdendo a sua profundidade. O arquétipo acaba reduzindo a Divindade a uma ou mais qualidades, e geralmente muito humanizadas.

Quando começamos a estudar uma nova Divindade em algum momento nos deparamos com materiais sobre os seus cultos mais antigos, que costumam trazer atribuições quase sempre mais amplas e por vezes até diferentes das mais difundidas e populares, isso pode até gerar alguma confusão, mas o fato é que os Deuses são de uma forma de existência transcendente e por mais que os humanos tenham a necessidade de compreendê-los sob seu próprio ponto de vista, esta compreensão é sempre muito relativa. A relação antiga do homem com a Divindade sempre foi mais intuitiva e passional, mas hoje somos excessivamente racionais e por isso perdemos muito sobre a verdadeira identidade dos nossos Deuses.

Um exemplo clássico de uma Divindade que foi reduzida pelo arquétipo é o da Deusa Afrodite, amplamente conhecida como a “Deusa do Amor” e abarrotada de pedidos de reconciliação, pedidos de romance, pedidos de beleza, de sedução, etc. Afrodite pode até mesmo responder a todos estes pedidos, pois no caso dEla, é uma Deusa benevolente, mas Ela possui muito mais atributos do que estes conhecidos, e é somente pelo estudo dedicado e pela vivência ritual que podemos conhecer a sua profundidade e oferecer um culto a Divindade.

Quando se faz um ritual utilizando apenas o que se sabe sobre o arquétipo isso pode ser bem mais problemático, a depender do objetivo do ritual e das forças que pretendem se trabalhar, porque quando chamamos por uma Divindade podemos muitas vezes lidar com seu aspecto total e precisamos estar preparados para tudo o que Ela tem a nos ofertar, por isso sempre estude muito a Divindade antes de comungar com a sua Magia e seu Poder.

Bem, para finalizar, meu objetivo com este texto é recomendar às pessoas que desejam oferecer culto, fazer rituais, ou mesmo apenas conhecer alguma Divindade que evitem tomar como verdades fontes que se restrinjam à Psicologia, uma vez que a ciência ainda limita muito do fenômeno espiritual, e busquem referências na própria literatura espiritual, mas mais vale aquela premissa de não julgar pelo que os outros dizem, mas ouvir o que a própria Divindade tem a dizer de si mesma, ou sentir/ver o que ela tem a mostrar sobre si, nada como um relacionamento pessoal com as Divindades!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Como Fazer Benção do Útero

Benção do útero sozinha pode? Pode!
Benção do útero sem ser "moon mother" pode? É claro que pode!

Houve uma grande movimentação após eu ter declarado publicamente minha opinião sobre os rituais de sincronização de benção do útero difundidas pela Miranda Gray e de pessoas perguntando como fazerem isso sozinhas, por isso vim aqui acender uma "luzinha". Ideias para fazer uma benção do útero independente...


Imagem: Domínio público, edição feita por mim.


INTRODUÇÃO

Para introduzir o assunto vou colocar aqui os pontos importantes sobre esse movimento e o porquê de me colocar contra o mesmo.

Segundo informações do site da Womb Blessing ela recebeu esta energia de benção do útero diretamente da Deusa, e passa essa energia por meio de um curso de "moon mother" como um monopólio da benção, além de ser, claro, um curso caro. Algumas vezes por ano nas Lua Cheias coincidentes com os Sabás, geralmente, é feita uma "sincronização mundial da benção do útero" na qual mulheres do mundo todo podem se cadastrar para receber a benção diretamente da Miranda, e o site oferece orientações para que todas possam fazer no mesmo horário independentemente do país. É claro que é a oportunidade perfeita para se auto promover e ganhar mais dinheiro com os eventos e cursos pagos pelo mundo, mas este não é apenas o único motivo pelo qual não participo da tal "sincronização", mas porque esta benção é algo normal, com referências de cultos pagãos antigos já conhecidos por muitos praticantes de bruxaria e xamanismo atualmente e qualquer mulher estaria capacitada para realiza-la.

Para começar, gente, eu estou sempre benzendo o meu útero, a cada ciclo por meio de rituais com o Vaso Menstrual e a minha Lua Pessoal (menstruação), então isto é algo realmente comum, mas também realmente poderoso, como falei hoje em uma postagem no meu Facebook eu já havia recebido a benção do útero, com e sem o cadastro no site da Miranda, e sinceramente meus rituais com a minha lua, eu e a Deusa somente, foram extremamente mais intensos, aliás, tem sido sempre. Por que isso? Porque é feito com coração, com fé e pureza de intenção.

Muitas pessoas dizem terem recebido curas por meio da benção da Miranda Gray, e eu acredito, acredito que essas pessoas estavam no momento certo de receberem suas curas e receberam, por meio da fé e do Poder que há em toda mulher.


PRÁTICA

Não olhei o material da Miranda justamente para passar aqui conforme eu acredito que funcione pela minha própria intuição, mas já fiz algumas vezes a meditação dela e pode ser que haja alguma semelhança, naturalmente, pois símbolos são universais e os ritos são antigos.

Os materiais serão quase sempre os mesmos, podendo-se acrescentar elementos relacionados ao Sabá ou a Lua em que estaremos, os quais vocês podem encontrar mais referências em textos na internet sobre Sabás e Esbás, os materiais mais básicos são:

- Vela branca ou prateada representando a Lua (se feito na Lua Negra pode ser preta);
- Cumbuca ou Cálice com água representando o útero (de preferência de material natural, também pode ser o seu caldeirão, se tiver);

- Ervas com propriedades diversas de acordo com a necessidade e intuito do ritual (opcional);

- Como estamos na Primavera podemos acrescentar flores que podem ser ofertadas em torno da vela e depois depositadas dentro da cumbuca com água.


Meditação: Você pode meditar imaginando a luz da lua descendo sobre você e preenchendo o seu útero com sua luz, fazendo afirmações de cura e de reconsagração do seu "vaso sagrado".

Exemplos de afirmações:

"Mãe Lua, reconsagre o meu útero para que ele seja o teu vaso sagrado."
"Peço pela purificação das memórias do meu útero."

As afirmações vão depender do propósito do ritual em específico se alinhando a energia do Sabá ou ao Esbá, por exemplo, estamos na Primavera e na Lua Cheia, então podemos afirmar fertilidade e criatividade, na Lua Negra poderíamos afirmar a limpeza de padrões negativos sobre ser mulher, sobre menstruação, sexualidade, etc.

Você pode fazer movimentos circulares da vela acesa em torno da cumbuca com água, como uma forma de representar que está direcionando a energia da Lua para o ventre, pois cada elemento material possui uma correspondência com energias que serão trabalhadas, no caso, a Lua (a vela) e o útero (a cumbuca ou cálice com água).

As ervas podem ser utilizadas para defumação antes ou durante a meditação queimando-as na própria vela, ou podem ser também oferecidas em torno da vela e depositadas em seguida na cumbuca com água simbolizando que está colocando as energias daquelas ervas para curar seu útero (ex.: alecrim - alegria e vitalidade, folhas de morango - afrodisíaco e fertilidade, etc).

Ao final da meditação você pode tomar essa água se desde o início você mentalizar que ali está sendo preparada uma água que irá curar o seu útero (cuidado para não usar nenhuma planta tóxica), caso você tenha mentalizado que ali estão sendo depositadas as energias negativas que estão sendo purificadas do seu útero o ideal é descartá-la aos pés de uma árvore grande no final.

Durante a meditação você pode seguir sua intuição tranquilamente, pois uma vez que você abre as portas da espiritualidade naturalmente você se torna um canal, você pode chamar por uma divindade lunar que você cultue ou tenha afinidade, ou que tenha relação com o útero e o Sagrado Feminino (ex.: Oxum, Chang-O, Diana, Shakti, etc). Você pode visualizar símbolos que estejam relacionados ao Feminino, à Deusa ou ao útero como espirais, jarros, árvores... Pode se imaginar em lugares sagrados na natureza, chamar animais de poder... Também pode visualizar cores relacionadas à cura que precisa (ex.: violeta - transmutação, verde - saúde, azul anil - intuição), você pode montar um altar com uma imagem de uma Deusa, você pode usar pedras, você pode tudo o que a sua intuição pedir e for para o bem.

Para quem usa Vaso Menstrual para armazenar o sangue da Lua Pessoal pode utiliza-lo no lugar da cumbuca ou cálice (desde que seja apenas para você, cada pessoa precisa representar o seu próprio útero no ritual e esta ferramenta é individual), inclusive se fizer o ritual sozinha e estiver na lua (menstruada) pode usar o sangue normalmente, apenas não deve beber a água com o sangue diluído, claro, rs, deve ofertar ao pé de uma grande árvore ao final ou em vasos de plantas.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Caso você tenha dificuldade em montar um ritual ou meditação sozinha, pesquise, peça ajuda para amigas que entendam mais, procure em sites confiáveis de bruxaria, grupos de estudos online, e caso não consiga de jeito nenhum, você pode seguir todo o material do site da Benção do Útero sem precisar se cadastrar no site para a sincronização.

Este material é para você que quer fazer a Benção independente.

Eu particularmente não faço mais a sincronização mundial da Miranda Gray porque considero como um meio de boicote ao comércio espiritual e também como uma forma de afirmar a minha autonomia sobre minha espiritualidade e a resistência diante da banalização do Sagrado.

Os Sabás e Esbás são coisas para serem vividas no dia-a-dia, são realizados os rituais destas passagens da natureza por tradições das mais diversas, eles têm origens, não foram criados para a benção do útero, apenas são utilizados como referências e fonte de Poder para a realização do ritual, mas são coisas que deveriam ser mais respeitadas e vivenciadas o ano todo seguindo o fluxo da natureza, e não banalizadas e lembradas apenas quando alguém faz uma meditação de benção do útero, até porque são práticas milenares e que possuem muito mais atribuições do que apenas abençoar úteros.

Que a Deusa esteja com vocês! _/\_

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Quem é a Deusa?

Ela está em tudo, é Ela quem faz tudo florir e crescer, e também é Ela quem brinca de ceifar tudo quando quer, Ela é o que faz o nosso coração bater e também quem o paralisa, é quem nos dá a vida e nos recebe em seu ventre novamente quando partimos deste mundo.

Imagem: Josephine Wall, "The Three Graces".

Quase todas as atribuições que você aprendeu que eram sobre um deus masculino, na verdade são sobre Ela. A Ela geralmente se atribui mais características terrestres e materiais, e ao deus masculino, mais características sublimes e espirituais, como se a mulher representasse o corpo e o homem o espírito, de alguma forma sempre se fala entre os religiosos e espiritualistas de tradições diversas na transcendência do material, o que novamente coloca o Feminino em segundo plano, como a natureza material a que devemos nos libertar.

Mas o Feminino está além da Mãe Terra, está também na espiral das galáxias, no formato esférico dos planetas, está no vazio onde tudo se cria, no impulso das explosões cósmicas, na Shakti, a potência criativa. Segundo as crenças hindus mais antigas o deus masculino seria a consciência no seu estado de inércia, representado geralmente por Shiva, uma consciência que apenas existe sem interagir com sua criação, como num sonho, a Shakti, o Divino Feminino é a força que realiza, que dá vida e forma às ideias dessa consciência inerte, é Ela a única quem faz Shiva se movimentar, tem um ditado hindu que diz que “Shiva sem Shakti é apenas shava”, shava significa cadáver. A Deusa é a verdadeira doadora e provedora de vida, Ela é a razão da nossa existência, seja ela física, energética, espiritual ou divina.

Meu pranto mais sentido pelos milhares de anos em que estivemos separadas e que eu e tantas mulheres estivemos incompletas sob as sombras de um herói solar, cujo trono é herdado da Mãe, apagando assim o Divino Feminino. O mito da Deusa virginal que dá a luz à uma criança solar que irá governar o mundo se repete em muitas tradições, representando a supressão do Feminino, a substituição da tradição matrifocal e matrilinear por uma sociedade governada por homens.

Esse mito que representa na verdade o movimento da Terra ao redor do Sol e as estações da natureza numa analogia que movimenta forças masculinas e femininas de forma harmoniosa (nascimento, amadurecimento, reprodução e morte), a chamada “Roda do Ano”, foi utilizado para afirmar as divindades masculinas como heróis salvadores da humanidade, como Jesus, Mitra e outros, e as Deusas foram jogadas para as sombras destes heróis como apenas as “mães” mortais, perdendo assim toda a sua infinidade de possibilidades e facetas, e seu Poder, isso quando não apagaram até mesmo as mães...

Foram muitos templos destruídos, imagens quebradas, documentos históricos ocultados e deturpados por motivações políticas de dominação social, curandeiras e mulheres simples do campo jogadas nas fogueiras da inquisição e muito mais. O patriarcado já vinha ocorrendo desde antes de Jesus, mas após ele esse movimento se intensificou e muito com o Cristianismo, que foi propagado aos quatro cantos do mundo, e é motivo de guerra até hoje no Oriente. E foi com essa crença que a grande maioria das mulheres ocidentais como nós fomos criadas, com um deus masculino rígido, um herói masculino filho “único e perfeito” de deus e uma mãe mortal à sua sombra, a Virgem Maria.

No momento de dificuldade soltamos um “ai, meu deus”, ao se despedir de um amigo “fica com deus”, ao agradecer um “deus te abençoe”, ao fazer uma súplica um “pelo amor de deus”, ao se livrar de algum mal um “graças a deus”, e assim nós fomos fixando e programando em nossa psique e no inconsciente coletivo da humanidade que deus é homem, simplesmente a palavra “Deusa” não faz parte do nosso vocabulário, do nosso dia-a-dia, e palavra é Poder, é mantra, é encantamento! Precisamos resgatar a Deusa, precisamos falar e falar dEla centenas de vezes para nossos amigos, familiares, colegas de trabalho, precisamos assumir Ela em nossas vidas e assim recuperarmos nosso próprio Poder que vem dEla.

A Deusa está aí, Ela sempre esteve, Ela está para quem quiser senti-la, Ela está em todos os lugares, em todas as coisas, apenas esperando que você acorde para Ela, que você abra os olhos um dia e se lembre de agradecer a Ela por estar vivo e por todas as dádivas que Ela nos dá.

Que a Deusa abençoe todos nós.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Bruxaria na Minha Vida

Imagem: Último encontro do Círculo de Mulheres Flores
de Yurema em São Paulo, por Rebecca Becker Fotografia.
É incrível a dificuldade que a gente tem de se reconhecer Bruxa. É mais do que se assumir publicamente, está num nível mais profundo onde você se percebe ou se compreende uma Bruxa.

A Bruxaria surgiu na minha vida, desta forma conceituada, tá? Porque eu já vivia em um mundo mágico desde que me conheço por gente, vendo animais selvagens que ninguém mais via (como onças) pela janela do carro quando viajava e passava pela Serra, apertando os olhos enquanto olhava para o mar, chamando e procurando atentamente por sereias, conversando com duendes, e vendo vultos escuros nas paredes (eu sempre tive medo de fantasmas)... Mas a Bruxaria mesmo surgiu na minha vida com este nome quando eu tinha entre 11 e 13 anos, eu mal consigo te dizer como isso aconteceu, sei que eu amava ver filmes de bruxas e achava que aquilo era real e ficava aguardando o dia em que eu iria “descobrir” que eu era uma bruxa também, nessa época eu já comprava revistas de signos e anjos e já colecionava bibelôs de anjinhos, fadas e pirâmides, tudo o que parecia místico eu queria, então surgiu uma revistinha clássica para o público infantil chamada “Witch” e lá eu soube que existiam pessoas que praticavam mesmo a Bruxaria, e que inclusive existia uma escola de magia, mas que infelizmente eu não poderia ir, pois era distante e minha família não tinha dinheiro para me pagar mais uma “escola”, além de acharem que tudo isso era uma fase e uma fantasia infantil.

Nessa mesma época tivemos o nosso primeiro computador em casa, e logo a internet, e ali eu procurava sites sobre Bruxaria e às vezes acessava salas de “bate-papo”, mesmo sendo menor de idade. Fiz minha mãe me levar até uma biblioteca perto de casa e consegui uns livros emprestados sobre Bruxaria antiga e cristais, até tentei fabricar cristais com açúcar, mas não deu certo para minha frustração infantil... E, olha, eu era tão séria que me lembro que tinha deixado certa vez um cristal de quartzo (pedra considerada do meu signo, Leão) numa concha com água e sal grosso tomando banho de sol e lua para energizar e meu pai para brincar comigo colocou esse cristal dentro da boca e eu até chorei de raiva, me sentia desrespeitada, mesmo sendo uma criança.

Eu tinha uma vizinha do lado de casa, era a minha melhor amiga, e eu acabei trazendo essas ideias para ela e juntas nós tentamos fazer um feitiço uma vez de um desses livros da biblioteca, que faria um papel sumir (era um teste apenas), tínhamos tanto medo que rezamos um “Pai-Nosso” antes e lemos o encantamento com uma Bíblia aberta do nosso lado... Nada aconteceu... E nada acontecia, nunca...

No meu aniversário de 13 anos ganhei de presente de algum familiar (porque eu tinha pedido, claro) o meu primeiro livro de Bruxaria, “Bruxaria Natural - Uma Escolade Magia” da Tânia Gori, a fundadora daquela escola de magia divulgada na revistinha Witch. Ali naquele livro as coisas ficavam muito mais claras e reais, mas até um pouco sem graça para uma criança que queria ver coisas fantásticas e sobrenaturais, a Bruxaria parecia tão “natural”, ironicamente... Claro que eu tentei montar um altar, e eu o tive por alguns anos, fiz um “Livro das Sombras” (Grimório), eu me lembro de ter Iemanjá no meu altar, era a deusa mais conhecida para mim naquele tempo, mas nenhum dos meus feitiços era efetivo, talvez por medo, por imaturidade, não sei ao certo, sei que meus pais me mandavam esconder as coisas do altar numa gaveta quando recebíamos visitas e que ele sempre tinha que ser fora de casa no quintal, minha família era de criação Católica não praticante, mas frequentavam Centros Espíritas Kardecistas, que eu ia vez ou outra contrariada, mas eu sempre soube que meu avô por parte de pai benzia e anos depois soube que minha bisavó por parte de mãe também.

Como meus feitiços nunca davam certo, mesmo comprando outros livros, como o Almanaque Wicca que saía nas bancas de jornais, entre outros que eu pegava referências na internet e nesses mesmos livros, eu fui me afastando da Bruxaria quando fui ficando adolescente, sem nunca perder os episódios de visões de vultos, espíritos e sustos durante a noite.

Quando eu já tinha os meus 19 anos e estava naquela correria de faculdade, emprego, vida social e relacionamentos eu tive uma crise de ansiedade depressiva (segundo um psiquiatra), eu comecei a sentir tristezas sem razões aparentes, depois comecei a sentir medo de dormir, medo de escuro, medo de sair sozinha, era terrível, quando meus pais já não sabiam mais o quê fazer comigo me levaram para o hospital, primeiro num clínico geral e em seguida num psiquiatra, claro que todos os problemas que eu estava passando que eram coisas normais da passagem da vida de adolescente para a vida adulta foram classificados como o motivo da minha crise, e me foi receitado um remédio tarja preta que eu não me lembro o nome agora, eu deveria toma-lo por exatamente 20 dias e retornar ao psiquiatra no final desse período. Quando comecei a tomar só me sentia uma ameba, o remédio me ajudou a dormir, e eu dormia muito, como uma morta e continuava sentindo as mesmas coisas ruins de sempre, além de tudo isso eu também tinha visões o tempo todo, coisa que eu não quis relatar ao psiquiatra e nem aos meus pais, por medo de acharem que eu estava enlouquecendo, eu fechava os olhos e via coisas sem sentido, buracos, larvas e outras coisas escuras, era horrível, com isto eu percebi que eu sempre tinha algumas visões de vez em quando, mais quando estava próxima do sono, mas nunca entendia, via pessoas, cenas, coisas que não sei de onde vinham...

No 12º dia do tratamento com o tarja-preta eu quis parar, parei por minha conta e até hoje nunca voltei ao psiquiatra, resolvi retomar meus estudos de Bruxaria, pensava que a Deusa poderia me ajudar, e retomei, mas continuava não sentindo as coisas como eu gostaria de sentir, com profundidade, aos poucos eu fui melhorando da crise, e logo deixei tudo de lado mais uma vez, e minhas visões pararam quase que em definitivo por alguns anos, eu rezava muito para Deus fazer isso parar seja o que isso fosse, e enfim, parou.

Quando eu cheguei mais ou menos nos 22 anos dessa vez a crise foi familiar e não depressiva, houveram muitas brigas entre os meus pais e me envolvendo também de alguma forma e eu me senti no fundo do poço, sem saber onde recorrer, eu me trancava no banheiro e lia “O Evangelho Segundo o Espiritismo” em voz alta algumas vezes enquanto as pessoas se encontravam aos berros e choros. Quando as coisas começaram a se acalmar eu tinha uma ferida muito grande na alma, e comecei a fazer psicoterapia e a frequentar um outro Centro Espírita Kardecista, e nesse meio tempo uma pessoa me falou sobre Ayahuasca, eu já tinha ouvido falar do “Chá do Santo Daime”, mas não fazia ideia de que isso era algo bom, eu já pesquisava enteógenos naturais porque frequentei muitas raves, e mesmo não chegando a experimentar drogas eu gostava da sensação de estar na mata dançando e aquilo me causava certa expansão de consciência, além de todo o contexto tribal hindu que se acredita ter dado origem às raves.

Comecei então a frequentar um Templo Xamânico, no início eu só assistia palestras e às vezes tinham consultas e passes com entidades, pretos-velhos e caboclos, como na Umbanda, que eu ainda não conhecia, achei tudo muito intrigante, e nesse lugar eu sentia as energias, sentia comoção, coisas que nunca senti em Centros Kardecistas. Logo participei do meu primeiro ritual com Ayahuasca nesse lugar, eles possuem uma “ordem iniciática” somente de mulheres, e embora seja tudo bem “indígena”, elas são devotas da deusa Ísis, e ali eu pude sentir a espiritualidade como eu sempre havia ansiado desde a infância, claro que só havia se aberto uma porta e eu ainda havia muito por explorar, mas eu senti um forte desejo de fazer parte daquilo, uma sensação de pertencimento, de reencontro.

Infelizmente, ou felizmente algum tempo depois fui percebendo que o local que eu frequentava era muito comercial, e que você só fazia amigos se você tivesse dinheiro, mas em vez de abandonar este caminho eu fui conhecendo outros Centros que trabalhavam com a Ayahuasca e nesses mais de 4 anos de consagrações, eu vivi muitas coisas incríveis, processos de dor e de primozia extrema como nunca poderia imaginar. Como muitos lugares que frequentei eram de orientação Universalista acabei conhecendo também outras religiões, como o Hare Krishna, no qual recebi iniciação apesar de hoje não me considerar desta religião, e assim fui me abrindo para muitas outras linhas, também desenvolvi a mediunidade na Umbanda por um ano, mas também acabei me afastando, as religiões institucionalizadas sempre acabavam me afastando, e o mesmo aconteceu com o Santo Daime quando conheci essa vertente.

Nessa peregrinação espiritual ardente e frenética que eu vivi nesses 4 anos procurando, na verdade, por mim mesma de alguma forma, eu acabei conhecendo o Sagrado Feminino e os Círculos de Mulheres, na verdade essa minha primeira consagração de Ayahuasca era um ritual do Sagrado Feminino já, mas essa parte da espiritualidade só foi se aprofundar mesmo nas vivências de Círculos de Mulheres que participei mais adiante, há pouco mais de 2 anos atrás. Foi quando comecei a trabalhar o sangue menstrual ritualisticamente, parei de tomar hormônios anticoncepcionais, usar absorventes de algodão e passei a me alinhar mais com a Lua e os fluxos da natureza, e as duas coisas foram se alinhando dentro de mim, o Xamanismo Ayahuasqueiro e o culto ao Sagrado Feminino, que na verdade é o culto antigo da Deusa ressurgindo como um meio de curar a mulher e a humanidade.

Criei um Círculo de Mulheres público e gratuito, o Flores de Yurema, e também passei a realizar alguns rituais solitários do Sagrado Feminino em casa, cada vez mais, até perceber que praticamente se formava uma rotina de culto em minha vida, algumas divindades começaram a surgir e a ganhar uma importância especial, algumas divindades masculinas surgiram também, mas percebi que o meu culto principal sempre será ao Feminino.

Devo lembrar que em 2014 eu recebi a instrução de que eu faria um trabalho do Sagrado Feminino com Ayahuasca, e no desenrolar das coisas essa missão se mostrou muito maior do que eu esperava e hoje eu e meu companheiro temos um projeto de um Templo Universalista que trabalhará com Ayahuasca, o TEU Luzes da Rainha, que está sendo construído e nós estamos recebendo desde então o devido preparo para tal.

Chegando até aqui o que eu percebo é uma vida inteira tentando encontrar essa Bruxa que estava perdida aqui dentro e que encontrei através das Plantas de Poder e do Xamanismo, e que acabou ganhando uma grande missão. Quando falamos de Xamanismo parece moderno, exótico, “diferentão”, e quando se fala em Bruxaria a gente ouve “você é ‘bruxinha’?”, entre risos, sinto essa palavra extremamente estigmatizada, como infantil ou como “coisa do mal”, sinto que hoje até os cultos religiosos de matriz africana que já sofreram tanto preconceito ganharam mais respeito do que a Bruxaria, afinal, eles se institucionalizaram como uma religião, e a Bruxaria não, muito embora exista a Wicca, ela não contempla toda a Bruxaria em sua infinitude.


Bruxaria é liberdade, bruxaria está além de bem e mal, de “pode” e “não pode”, está além de qualquer caixa que tentem colocá-la, eu gosto de diferir a Bruxaria do Xamanismo muito mais pela forma de culto atual do que pela essência, porque na essência eu não vejo diferença, quem pratica Xamanismo, pratica Bruxaria, é um fato, mas é claro que ocorreram diferenciações ao longo dos anos, e a palavra Xamanismo no contexto acadêmico hoje é relativamente nova com relação ao termo Bruxaria, eu explico melhor essa relação entre um e outro neste texto aqui: Xamanismo e Bruxaria.

Enfim... Percebi o quanto eu ainda nego em mim a Bruxaria, o quanto eu ainda considero “mais legal” ou “mais adequado” falar que sou “xamanista”, “universalista” do que simplesmente vomitar na cara da sociedade “SOU BRUXA”. Xamanista define melhor meu campo de estudo e atuação, que é com plantas de poder e cura, e universalista só explica a minha crença que é o reconhecimento do Divino em todas as divindades e seres de culturas diferentes e suas formas de culto (muitas bruxas podem ser consideradas universalistas), mas Bruxa é o que sou, uma mulher que transforma, dentro e fora, que não simplesmente aceita a vida com resignação e fatalidade (pelo menos não o tempo todo), e que atua manipulando com sabedoria os elementos em seu favor, em favor do próximo e da própria natureza, uma Bruxa também é uma guardiã da natureza por excelência, pois é dela que ela tira os elementos para poder praticar a sua magia, e por isso vive com ela em harmonia, zela por ela, reconhece o Poder em todas as coisas e por isso o respeita, sobretudo, sem temor, a Bruxa é uma amiga dos deuses, a eles confessa suas maiores dores, medos e aflições, e com eles celebra suas alegrias, conquistas e amores e a eles ela roga, de dentro de si a Presença que conforta, consola e ampara a sua comunidade, a Bruxa é o receptáculo do Divino.

Eu Sou Bruxa.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Nossa Mãe (Resignificando a oração "Pai Nosso")

Na maioria das culturas antigas pré-patriarcais o costume era que as mulheres cultuassem a Deusa e os homens, o Deus, cada um honrando e reverenciando o seu oposto complementar, mas seus templos e cultos eram divididos desta maneira, neste sentido, trago hoje uma oração que intui resignificando o tradicional "Pai Nosso" para uma oração para mulheres fazerem à Grande Mãe, a Nossa Mãe.



Nossa Mãe
Que estás na Terra, na água, no fogo e no ar
Santificado seja o teu corpo com tua fartura e beleza
Este é o Vosso Reino Natural e a ele pertencemos
Que conforme a tua vontade seja a nossa existência em harmonia
Pois tudo o que vive na Terra possui espírito
E é dEla o alimento que todo dia nos dai, Mãe
Perdoai-nos, Mãe, a nossa humanidade
Pois nós ainda somos falhos em perdoar o próximo na mesma proporção da Tua compaixão infinita
Quando cairmos, que a Senhora nos ampare em teu leito, pois de Ti viemos e a Ti retornaremos
E transmuta, Mãe, em Teu ventre todo o mal em Amor.

Sinal da Cruz:
Em nome da Lua Cheia (terceiro olho), da Lua Negra (ventre), da Deusa que há em mim (coração), da Lua Ceifadora (esquerda) e da Lua Ascendente (direita), que assim seja (mãos unidas e reverência abaixando a cabeça).


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Por que o Sagrado Feminino PRECISA do Feminismo?

Imagem: A pintura de fundo é de autoria de Corina.
A imagem sobreposta com a frase é do 'blogueirasfeministas.org'.


Um pouco da minha missão e história de vida se confundem com este texto...

Primeiramente eu gostaria de dizer que eu não sou nenhuma entendida sobre a parte teórico-filosófica do Feminismo, não li as principais autoras, não pesquisei muito, mas consigo compreender como mulher o quanto esta luta nos importa.

Inicialmente eu tive muita resistência em compreender o Feminismo e em entender porque ele era necessário, pois sempre acabava me deparando com pessoas extremistas e isso me deixava frustrada, por ver o tom de violência que permeava seus discursos frequentemente. Imagine uma pessoa recém-descoberta no mundo utópico do Sagrado Feminino para a classe média que podia pagar na época, sentindo coisas profundas acontecendo dentro de mim, sentindo amor entre mulheres, amor pela natureza,  amor, amor... e no meio de tanto amor eu me perdi e não vi mais aquelas mulheres em situação de rua, em situação de prostituição, em situação de violência, vivendo nas favelas, etc.

Eu precisava me curar para aprender a olhar para o outro também...

Eu que sempre fui revolucionária, que chorava pela desgraça alheia desde criança, de repente estava alienada achando que tudo era só paz e amor e que assim tudo se resolveria.

Até que eu saí da casa dos meus pais e meus principais confortos capitalistas ficaram ali para sempre, junto com aquela consciência limitada de quem quase sempre tem o que quer. Vivi de forma bem simples desde então, me libertando cada vez mais, ainda estou me libertando, aliás.

Tendo a minha própria família e vivendo de forma simples passei a compreender o valor que tinham as coisas (ou o valor que o sistema atribui as coisas), passei a entender que nem todos tinham dinheiro para pagar rituais, cerimônias, cursos... Porque de repente era eu quem não tinha mais, mesmo tendo deixado de comprar roupas e outros pequenos luxos, mesmo tendo deixado de ir à festas, de fazer passeios, de comer fora e comprar petiscos.

Ué, se eu não precisava mais gastar 40 a 60 reais com essas coisas, por que eu iria pagar esse valor em um ritual religioso-espiritual, em uma coisa imaterial, não-intelectual e não-material, mas natural, essencial, se com esse dinheiro eu poderia fazer uma boa compra de alimentos, por exemplo? E fui além, pensei nas pessoas que nem tem para o alimento. E naquelas que mal tem como existir e nem sabem direito que estão vivas...

Era claro para mim pela primeira vez, espiritualidade não pode ser comercializada, o Sagrado pertence a todos, não podemos vender Deus! (ou a Deusa!)

Começou assim, então eu não iria mais nessas cerimônias pagas, e como eu já tinha inclinação ao Sacerdócio, oferecer espiritualidade livre, gratuita, SAGRADA, ESPIRITUALIDADE DE VERDADE passou a ser também a minha missão, minha e do meu companheiro, que acompanhava meu despertar e ao mesmo tempo despertava comigo.

E de repente eu passei a entender a importância das lutas sociais, se até Deus estava sendo vendido, quem poderia proteger e acolher as pessoas mais necessitadas? Quem?...

Eu não tenho tanta inclinação política, confesso, mas sei que há pessoas que naturalmente têm, elas têm essa missão, estão aqui para isso e têm paixão e vontade para realizar certas tarefas, é o Dharma delas.

Entendi que eu sou Feminista, porque eu preciso dessa luta também, não apenas por mim, mas principalmente por todas as mulheres que eu chamo de irmãs, ao pensar o Sagrado Feminino de forma Universal.

Que despertar mais egoísta seria este onde apenas as mulheres que têm dinheiro importam?

É claro que as mulheres periféricas precisam muito mais do que nós do Sagrado Feminino, elas são as principais oprimidas, pelos homens, pela indústria e até pela medicina, precisamos chegar até elas, claro que precisamos.

Então imagine que eu chego hoje numa mulher em situação de rua e digo que ela precisa honrar suas ancestrais (que podem ter sido as primeiras abusadoras, as que a abandonaram e a diminuíram), que ela precisa amar o seu sangue (que ela odeia por não ter nem um banheiro para suas necessidades mais básicas, porque a faz sentir dor e vergonha por mal ter uma roupa), que ela precisa ser irmã das outras mulheres (sendo que a maioria das pessoas não quer nem mesmo olhar para ela)... Acham que assim podemos ajudar esta mulher? Claro que não.

Estas mulheres antes precisam entender que elas são PESSOAS, que elas possuem DIREITOS e que elas são DONAS DE SEUS CORPOS, esse é o papel do Feminismo.

MAS saibam que não são apenas as mulheres de classe baixa que não sabem que são pessoas, que possuem direitos e que são donas de seus corpos. Existem mulheres de todas as classes neste exato momento trancafiadas em casa porque o marido não as deixam sair, porque são violentadas e ameaçadas, muitas delas precisam antes entenderem que são pessoas para poderem ter acesso a qualquer coisa que possa ajudá-las a ascenderem espiritualmente.

Nós temos um corpo, este corpo é o nosso templo, é Sagrado, é onde nossa alma habita, é dentro dele que ocorre toda a magia do Sagrado Feminino, nosso templo precisa ser restaurado, amado, alimentado, respeitado, dignificado!

Precisamos obter a autonomia sobre ele, a gente pensa com esse corpo, a gente sente com esse corpo. Precisamos dar a ele a consciência de que somos nós as donas do corpo e de que nós podemos existir com dignidade, somente com mentes e corpos libertos poderemos acessar a Alma, o Divino que nos habita.

Eu reverencio as minhas irmãs que lutam pelo Feminismo, pois elas lutam por todas nós!

Gratidão às mulheres militantes!

Porque não vai ter círculo de mulheres livres e pensadoras realizando rituais de magia abertamente se não tiver alguém lutando para que essas mesmas mulheres saibam que elas são livres para poderem viver sua espiritualidade como bem entenderem.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Livro: Círculos Sagrados Para Mulheres Contemporâneas

Imagem: Acervo pessoal.

Autora: Mirella Faur
Editora: Pensamento
Ano: 2011
Nº de páginas: 542

Sinopse: "Mirella Faur compartilha suas experiências e conhecimentos sobre a formação, condução e manutenção de um círculo cerimonial. Esta obra, escrita de forma didática e repleta de orientações práticas e modelos de rituais, celebrações e meditações, fornece um precioso material informativo para qualquer pessoa interessada em iniciar, ampliar ou aprofundar as vivências relacionadas à sabedoria milenar feminina em sua vida e em benefício do planeta."


RESUMO PESSOAL

Este livro chegou a mim como indicação de estudo em uma Oficina de Círculos de Mulheres há quase 3 anos, mas só fui comprá-lo algum tempo depois, pois é um livro relativamente caro.

Passei exatamente 2 anos lendo-o (do início ao fim), considerei esse processo todo uma imersão em estudos sobre o Sagrado Feminino e os Círculos de Mulheres, curiosamente eu terminei de lê-lo exatamente um dia após o dia em que fez dois anos que ele chegou em minhas mãos pelo correio. E muitas vezes eu o abandonei de lado por dias, semanas, até mesmo meses, e SEMPRE "coincidentemente" a parte em que eu chegava no livro era geralmente um ensinamento muito adequado para o momento em que eu estava vivendo, então foi uma bela jornada, começada no mês da minha revolução solar e terminada no mesmo momento. Essas "iniciações" da vida que sempre nos surpreendem...

Sobre o conteúdo, devo dizer que é um livro muito completo, e eu recomendo-o MUITO para mulheres iniciantes em magia, mas principalmente para aquelas que desejam aprenderem para tornarem-se facilitadoras/guardiãs de Círculos do Sagrado Feminino. Todo ele é bem fundamentado historicamente e com referências de mitologias e cultos diversos, uma das coisas que mais gosto nele é o fato de não "puxar a sardinha" para nenhum lado e trazer ensinamentos com qualidade de várias vertentes que cultuam a Deusa, inclusive a Xamânica.

Mas é justamente nesta parte que tenho uma crítica construtiva a fazer: Toda a parte que disserta sobre o Xamanismo é sobre o Xamanismo da tradição Norte-Americana, isso precisaria estar melhor esclarecido, pelo fato de que pessoas leigas podem ler e ter aquilo como o Xamanismo como um todo, sendo que existem tradições Xamânicas pelo mundo todo, até mesmo as correspondências de elementos com as direções (Norte, Sul, Leste, Oeste) levam em consideração apenas a tradição Norte-Americana, sendo que ela varia de região para região também. O mesmo ocorre com o livro O Legado da Deusa, de mesma autoria.

Não gosto de "endeusar" ninguém, então preciso colocar os pontos que observei, a autora também se coloca a favor dos rituais com taxas de participação, o que seria ok numa sociedade ideal, mas não em uma desigual, como a que vivemos, no entanto ainda acredito que nos Círculos fechados que funcionam como covens naturalmente os custos acabam se dividindo entre as participantes pois todas acabam sendo as "guardiãs" do Círculo.


Fora isso, é um livro que gostei muito, considero-o um livro para consultas, então por mais que não tenha ele free em formato pdf, é um livro que vale a pena o custo-benefício, porque se você quiser levar as práticas a diante, poderá utilizá-lo como base por toda a vida, por favor, COMO BASE, se inspire e crie seus próprios ritos também. :)

Ao longo do livro a autora também traz relatos de sua própria história na jornada espiritual, o que é muito bacana de acompanhar, pois ela relata dificuldades (e também superações) que muitas de nós passamos e ainda podemos passar e esta identificação é muito curadora e empoderadora no Sagrado Feminino.

Um alerta que gostaria de deixar para finalizar é que algumas coisas que você vai ler fazem parte do conjunto de crenças da autora, isto não significa que sirva para você, ou que seja a verdade absoluta, até porque não tratamos aqui de uma religião dogmática, mas de um culto livre, então façam seus filtros, e aproveitem que o material tem muuuito a agregar.

Boa leitura para quem for ler! 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

I. Culto ao Sagrado Feminino: Introdução

Representação da deusa Gaia do panteão grego e de uma deusa Mãe de origem celta em um altar.


Existem diversas formas de culto ao Sagrado Feminino, mas vou explicar do meu próprio ponto de vista, que é Universalista e é como eu o entendo e pratico. Primeiramente devo esclarecer que o culto ao Sagrado Feminino não deve se confundir com a Bruxaria, pois a Bruxaria abrange muito mais práticas e pode ou não ter seu foco para este tipo de culto, embora possa-se dizer que é uma forma de Bruxaria, ela não representa o seu todo e eu o entendo como uma das formas de se praticar o Xamanismo, senão uma das essenciais.


Introdução Histórica

Da minha interpretação e estudos eu compreendo o Sagrado Feminino como um culto que surge na atualidade para um resgate, ou um acerto Kármico no Planeta Terra. No passado sabemos que houveram sociedades Matrifocais, Matriarcais, diversas formas de culto à Deusa, no entanto, como sempre digo, o caminho é rumo à evolução, então não basta nós simplesmente tornarmos ao passado, senão ignoraremos muito do que adquirimos em consciência nos últimos milênios. Mesmo nas sociedades que cultuavam as deusas ainda haviam guerras, ainda haviam distorções de um ser humano que iniciou sua jornada neste planeta quase totalmente instintivo, como um animal, este lado animal do ser humano é sagrado, faz parte da sua humanidade, de sua integralidade e deve ser aceito também, mas ao longo de nossa existência desenvolvemos uma consciência para além do instinto, isto cientificamente falando, não é especulação!

Como seres totalmente instintivos, por questão de sobrevivência havia harmonia com a natureza e, por conseguinte, reverência. Quando o ser passa a desenvolver maior consciência de si e racionalizar ele passa a se acreditar superior à natureza, que antes era aquela Mãe que o sustentava, o nutria, o abrigava e provia a todas as suas necessidades, era a grande razão de sua ínfima existência. Sendo o racional entendido como o Princípio Masculino e o instintivo-emocional como Princípio Feminino, começa aí a história da nossa “dívida”, na verdade o racional era algo necessário para o nosso desenvolvimento consciente de si e posteriormente de Deus (ou suas divindades), mas fomos de um extremo a outro subjugando, a princípio, a natureza e em seguida, as mulheres, os seres humanos de gênero ou biologia feminina.


Introdução à Prática Atual

Feita esta introdução histórica, vamos à prática atual... Hoje o culto ao Sagrado Feminino visa primeiramente trazer cura emocional e física a muitas mulheres que sofrem com o patriarcado e a supressão do feminino, por isto muito se confunde o mesmo com Terapia Holística, já que é primeiramente uma prática terapêutica. Também é voltado a uma maior consciência ecológica para curar a supressão da Natureza, que seria o Princípio Feminino natural, o macrocosmo que reflete no microcosmo. Curando as mulheres curaremos a natureza e curando a natureza curaremos as mulheres, e até mesmo a humanidade, já que princípios Feminino e Masculino estão em todos os seres, mas na maioria deles o suprimido é o Feminino, enquanto que o Masculino está exacerbado, ultrapassando os limites do equilíbrio do ser.


Todo o Poder está dentro de nós... Os Arquétipos

Dentro destas práticas estão o culto e a prática de magia com deusas arquetípicas de tradições diversas, muitas com aspectos humanizados. Nós, os seres humanos somos os descendentes dos deuses, vejam que diversas tradições nos trazem a informação de que seus deuses habitaram a Terra, o que evidencia isto como uma possível verdade, se você tiver isto como verdade entenderá que muitas das deusas de tradições diversas podem estar geneticamente ligadas a você pelas suas vidas passadas, as deusas são a nossa ancestralidade (assim como os deuses), e numa reflexão mais profunda aonde acredita-se que somos todos poeiras de estrelas que evoluíram desde a explosão da Criação (o tal Big-Bang), TODOS estamos conectados geneticamente, e provavelmente trazemos em nossos genes toda a história da humanidade... Muita informação, né?

Simplificando, estamos todos conectados por memórias ancestrais (algumas tradições chamam de Akasha) e somos todos descendentes dos deuses e deusas, de TODOS eles, muito embora um ou outro se sobressaia, mas ainda não quero aprofundar nesta parte. Seguindo... Com a supressão da natureza e do Princípio Feminino as mulheres, principalmente, ficaram assim “incompletas”, com diversos desequilíbrios, traumas e bloqueios devido à supressão de diversos aspectos de si mesmas (ou das deusas), estes aspectos são o que a Psicologia Junguiana trata por Arquétipos (não que isto seja propriedade de Jung, mas utiliza-se amplamente esta nomenclatura). Quase todas as religiões que cultuam deuses (Politeístas, Mono-panteístas, Panteístas...) trazem neles alguns Arquétipos, o exemplo mais comum é o tríplice (Jovem, Mãe/Pai, Anciões), mas existem muitos mais, assim como a nossa vida também não se limita a apenas sermos jovens, mães e pais, ou velhos, existem nuances em torno disto como o arquétipo Guerreiro, Amante, e até mesmo o da Sombra, então daí já entende-se que não acreditamos no conceito de “pecado” cristão, ou na ideia cristã de “inferno” e nem em um ser supremo oposto ao bem, o tal “diabo”, pois acreditamos na integralidade do ser na sua humanidade, e na sua dualidade que é luz, mas também é sombra, e isto não nos torna ruins, na verdade nos dá a liberdade de sermos conforme somos e sentimos, e também a responsabilidade sobre as consequências de nossos atos negativos, sem que estes sejam atribuídos a uma entidade do mal, daí a importância do equilíbrio de todas estas faces, pois uma pessoa não poderia se defender do mal do mundo sendo apenas “bonzinho” o tempo todo, por exemplo.


Objetivos da Prática Contemporânea

O culto ao Sagrado Feminino contemporâneo então, numa reflexão mais profunda, tem por objetivo, integrar, por meio de rituais, na psique e na alma feminina (ou masculina também) de volta a totalidade de seu Poder, é isto a que muito se chama de “Empoderamento” um conceito do Feminismo que foi de certa forma apropriado por praticantes do culto ao Sagrado Feminino. Sendo assim, a prática frequente dos rituais traz o reequilíbrio da mulher na sua integralidade, trazendo para dentro de si mesma as deusas suprimidas do passado (que são ao mesmo tempo todo o emocional-intuitivo do ser humano suprimido pela racionalização exagerada da atualidade), a Jovem que nos ensina a termos pureza e espontaneidade, a Amante que nos ensina a lidar com nossa sexualidade e sensualidade, a Mãe que nos ensina a acolher e cuidar, a Guerreira que nos ensina a nos defender e lutar por nossos objetivos, a Velha que nos ensina a sabedoria do tempo, a Sombra que nos ensina a trazer luz para a nossa escuridão interior e aceitar nosso lado mais oculto, e assim por diante...

E no momento em que as mulheres começam a acolher estas deusas dentro de si, elas se voltam à natureza mais instintiva do ser humano, aquela mesma do início do texto, no início da história aonde o ser vivia em harmonia com o planeta Terra, sua fauna, flora, e seus ciclos, por sobrevivência, e agora que adquire consciência e equilíbrio, com reverência consciente, pois agora é consciente dos deuses tanto dentro como fora de si.


Semelhanças e Diferenças Rituais e Religiosas

Vejam que os rituais do Sagrado Feminino servem para curar, equilibrar e reintegrar algo que já nos pertence, diferente de práticas de Bruxaria que visam fins dos mais diversos, tanto para o bem, como para o mal, a depender do caráter daquele que a pratica, muitas vezes são para para obter vantagens e bens materiais, mas a pessoa que pratica o culto ao Sagrado Feminino não precisa se preocupar com isto, pois quando estiver íntegra e em harmonia tudo o que lhe pertence chegará até você. Se a pessoa estiver sofrendo por amor, esta deve se integrar e se conectar ao arquétipo Amante em vez de fazer um ritual no intuito de “amarrar” alguém, ou até mesmo de encontrar um novo amor (que pode ser um ritual inofensivo), mas mais vale você SER a expressão do amor, que a própria expansão de sua energia atrairá pessoas de vibrações afins que também estão expressando o verdadeiro amor.

Ainda podemos perceber uma afinidade sutil com a religião de Umbanda no sentido de que alguns dos Arquétipos podem ser semelhantes e possuem algo a nos ensinar, mas temos que a missão da Umbanda nesse sentido é integrar o ser em sua totalidade, e já a do culto ao Sagrado Feminino é a de reequilibrar os pólos Feminino e Masculino do Planeta Terra por meio da cura do Princípio Feminino suprimido, nas mulheres, na humanidade e na natureza, assim fazendo também um resgate kármico da humanidade pelo patriarcado.


Leia mais sobre o Sagrado Feminino:

Sagrado Feminino: O Chamado da Deusa


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