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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Meu Retorno para a Deusa: Reflexões pessoais sobre a vida material e como a Divindade se manifesta através dela

Em um momento de birra, como criança espiritual que sou (ou era, até então) eu decidi desmontar todos os meus altares, revoltada, pois algumas coisas vinham dando errado em minha vida e eu não conseguia perceber os sinais que esta situação me trazia. Diante de tamanha ingratidão estavam minhas Deusas sendo encaixotadas entre lágrimas, eu não podia perceber a Sua sublime presença oculta manifesta em tudo ao meu redor, no ar que eu inspirava e me fazia acordada todos os dias, no meu alimento, na vida dos meus animais, em toda vida à minha volta, mesmo na cidade, essa vida que tenta entrar pelas fendas das calçadas, sufocada.

Assim estava a Divindade em mim, sufocada, tentando emergir por qualquer fenda, jorrando dos meus olhos e nariz em lágrimas, ou do ventre em sangue dolorido todo mês, tentando me dizer algo, e eu como aquelas pessoas que reclamam do matinho que nasce na calçada, como se aquilo fosse um incômodo. E no fim, aquilo que nos incomoda tem muito de nós mesmos, daquilo que tentamos negar, ocultar...

E minha Deusa emergiu assim em mim, da forma que pôde, com dores e tristezas que eu não podia compreender. E quase que inconscientemente eu fui retornando a Ela, de uma forma sutil ela me chamava a pintar, a cantar, a dançar e com sua arte ela me curava e depositava seu amor infinito sobre mim.

Muitas das coisas consideradas "materiais" que neguei numa suposta "troca" por iluminação começavam a voltar para mim, velhos desejos, sonhos, e pela primeira vez eu me permiti, estava tão cansada daquele conceito de espiritualidade pesada que a gente carrega como um fardo, como mártir, como se a intensidade da sua luz, da sua entrega, se contasse em números de renúncias.

Entrega, pela primeira vez estava mesmo me entregando, me entregando a mim, a viver o que eu quisesse, sem um prévio julgamento moral, e ali Ela começou a aparecer para mim mais uma vez, e outra, e nunca mais se foi, como na verdade nunca havia partido. Mais do que na vida, agora eu que podia percebê-la, vê-la na arte, no prazer, na alegria e na beleza, todas suas dádivas, todas manifestações dEla que tem toda a emoção, toda a sensibilidade, todo prazer, alegria e beleza.


Estátua da Deusa Afrodite, na Ilha de Chipre.

Ela nos fez assim, como Deuses, capazes de manifestá-la em tudo, até mesmo na ira, mas mais do que aos outros animais nos presenteou com infinita emoção e capacidade de comover-se com a arte e o belo.

Perdi finalmente a minha "inocência" espiritual, aquela que me fazia achar que por fazer rituais e orações tudo sairia conforme eu desejava, sem compreender os desejos mais profundos da Alma, de minha Mãe que É em mim.

Eu não compreendia que esse era o momento de simplesmente ser quem eu era e parar de pedir por algo que não estava pronto, para o qual eu não estava pronta. Era hora de deixar os rituais e manifestar a Deusa em mim mesma, na realidade material, era hora de viver suas dádivas...

E foi assim que voltei aos braços fortes, mas doces da minha Grande Mãe, apenas sendo eu, e vivendo as dádivas do Universo perfeito que Ela criou: Prazer e Arte!

A DEUSA ESTÁ EM TUDO! Heya! 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Me libertei do "Sagrado Feminino"

Depois de cerca de 5 anos de práticas decidi me libertar do “Sagrado Feminino”.

O termo “Sagrado Feminino” não se refere mais à Espiritualidade em comunhão com a Deusa, com a Grande Mãe como o foi no princípio, e entendo isto como um fenômeno cultural que se deu pela sua popularização e pela forte adesão dos terapeutas aos seus conceitos e visão de mundo.

Hoje o termo se refere a todo um conjunto de práticas terapêuticas adaptadas geralmente em formato de Círculo como referência ao Sagrado, onde quase sempre se trabalha com as Deusas, entidades e ancestrais como arquétipos, fundamentados pela Psicologia Junguiana, e não mais de forma religiosa-espiritual como seres verdadeiros e invisíveis habitantes de outros mundos e dimensões como já o faziam as bruxas desde muito antes do termo ganhar tamanha popularidade.

Então esse “Sagrado Feminino” de hoje não depende mais de fé, já que se baseia numa “ciência” e por este motivo acabou ganhando também a adesão de pessoas de outras religiões que estão parcial ou até mesmo totalmente em desacordo com os valores e visão de mundo da Antiga Religião da Deusa.

E é nesta parte que eu corto meus laços com esse termo para sempre, pois reduzir nossos Deuses à facetas de nossa própria mente e ainda vender nossos antigos rituais levando o nome de SAGRADO como algo ordinário, como algo negociável é uma ofensa para as verdadeiras bruxas de todos os tempos, e principalmente para aquelas que lutaram para tirar a nossa fé das trevas da ignorância e ter as nossas tradições respeitadas.

Hoje antigos rituais e práticas de bruxaria são vendidos (e às vezes por muito caro) pelo mundo todo com o título de “Sagrado Feminino”, são vendidos como terapia e às vezes são vendidos até como “espiritualidade” mesmo.

Infelizmente quando penso nesse termo eu já não sinto mais aquele Poder, aquele encanto antigo que me tocava na alma, mas apenas vejo pelos olhos físicos e também pelos olhos da mente diversas mulheres estereotipadas, brancas, cabelos padrão liso/ondulado, saia indiana (possivelmente muitas de trabalho escravo de outras mulheres), flores na cabeça, penduricalhos com pedras pelo corpo, pinturas corporais (muitas vezes imitando simbologias indígenas desconhecidas), termos como “mana”, “lua” e “gratidão”, e as dezenas de propagandas de eventos caros prometendo a cura do feminino se utilizando de todos estes elementos citados acima como ELEMENTOS DE MARKETING.


As que são vistas.

Sim, criamos um código com diversos estereótipos que nos identificam na sociedade. Antigamente eu ia em um evento desses e achava engraçado e legal que as meninas e eu mesma acabávamos sempre nos reconhecendo pela roupa “essa tem cara de quem vai no Sagrado Feminino”, como o evangélico de social com a bíblia debaixo do braço, elas, de saião colorido, claro. Hoje fico triste, porque quando olho uma mulher de roupas simples na rua, uma mãe de família, uma dona-de-casa, uma prostituta, uma mulher em situação de rua eu não vejo nelas esse “Sagrado Feminino” que eu identificava nas minhas amigas...

As que não são vistas.

Esse tal “Sagrado” que dizem que traz o ideal de unir mulheres, na verdade gera um código de conduta social (vestimentas, expressões, etc) que nos separa, e não foi isso que aprendi quando li sobre a Antiga Religião da Deusa quando eu tinha 13 anos, quando não tinha internet, nem redes sociais e nem esse culto exagerado a si mesmo preconizado pela famosa “selfie”. Eram só os valores da essência que estavam nos livros, não se falava de gírias utilizadas por um grupo de praticantes ou de vestimentas padrão, e pasmem, a vestimenta mais comum era o NU, sim, o despir de todas essas máscaras que ostentamos na sociedade.

E é assim que vai ser meu encontro com a Deusa e o Sagrado de agora em diante: NU, não exatamente nua no sentido literal, mas despida de todas essas coisas que absorvi durante esse modismo, começo a partir de agora esse caminho de volta para a essência verdadeira.

A partir de hoje estarei me desvinculando de tudo o quanto for possível com esse termo “Sagrado Feminino”, que agora só vou utilizar com aspas.

Esse texto vai causar desconforto em muita gente, mas em mim causei agora uma libertação colocando essas palavras que gritavam na minha alma em público.

*Gostaria de deixar uma observação de que não tenho nada contra Terapeutas (eu sou Terapeuta e tenho amigos também Terapeutas) e nem contra a Psicologia Junguiana, eu também a estudo, utilizo e entendo como um outra forma de estudar as Divindades para além do sentido religioso-espiritual, meu problema é com quem se utiliza dela para VENDER algo que leve o nome de SAGRADO, que isso fique claro.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Quem é a Deusa?

Ela está em tudo, é Ela quem faz tudo florir e crescer, e também é Ela quem brinca de ceifar tudo quando quer, Ela é o que faz o nosso coração bater e também quem o paralisa, é quem nos dá a vida e nos recebe em seu ventre novamente quando partimos deste mundo.

Imagem: Josephine Wall, "The Three Graces".

Quase todas as atribuições que você aprendeu que eram sobre um deus masculino, na verdade são sobre Ela. A Ela geralmente se atribui mais características terrestres e materiais, e ao deus masculino, mais características sublimes e espirituais, como se a mulher representasse o corpo e o homem o espírito, de alguma forma sempre se fala entre os religiosos e espiritualistas de tradições diversas na transcendência do material, o que novamente coloca o Feminino em segundo plano, como a natureza material a que devemos nos libertar.

Mas o Feminino está além da Mãe Terra, está também na espiral das galáxias, no formato esférico dos planetas, está no vazio onde tudo se cria, no impulso das explosões cósmicas, na Shakti, a potência criativa. Segundo as crenças hindus mais antigas o deus masculino seria a consciência no seu estado de inércia, representado geralmente por Shiva, uma consciência que apenas existe sem interagir com sua criação, como num sonho, a Shakti, o Divino Feminino é a força que realiza, que dá vida e forma às ideias dessa consciência inerte, é Ela a única quem faz Shiva se movimentar, tem um ditado hindu que diz que “Shiva sem Shakti é apenas shava”, shava significa cadáver. A Deusa é a verdadeira doadora e provedora de vida, Ela é a razão da nossa existência, seja ela física, energética, espiritual ou divina.

Meu pranto mais sentido pelos milhares de anos em que estivemos separadas e que eu e tantas mulheres estivemos incompletas sob as sombras de um herói solar, cujo trono é herdado da Mãe, apagando assim o Divino Feminino. O mito da Deusa virginal que dá a luz à uma criança solar que irá governar o mundo se repete em muitas tradições, representando a supressão do Feminino, a substituição da tradição matrifocal e matrilinear por uma sociedade governada por homens.

Esse mito que representa na verdade o movimento da Terra ao redor do Sol e as estações da natureza numa analogia que movimenta forças masculinas e femininas de forma harmoniosa (nascimento, amadurecimento, reprodução e morte), a chamada “Roda do Ano”, foi utilizado para afirmar as divindades masculinas como heróis salvadores da humanidade, como Jesus, Mitra e outros, e as Deusas foram jogadas para as sombras destes heróis como apenas as “mães” mortais, perdendo assim toda a sua infinidade de possibilidades e facetas, e seu Poder, isso quando não apagaram até mesmo as mães...

Foram muitos templos destruídos, imagens quebradas, documentos históricos ocultados e deturpados por motivações políticas de dominação social, curandeiras e mulheres simples do campo jogadas nas fogueiras da inquisição e muito mais. O patriarcado já vinha ocorrendo desde antes de Jesus, mas após ele esse movimento se intensificou e muito com o Cristianismo, que foi propagado aos quatro cantos do mundo, e é motivo de guerra até hoje no Oriente. E foi com essa crença que a grande maioria das mulheres ocidentais como nós fomos criadas, com um deus masculino rígido, um herói masculino filho “único e perfeito” de deus e uma mãe mortal à sua sombra, a Virgem Maria.

No momento de dificuldade soltamos um “ai, meu deus”, ao se despedir de um amigo “fica com deus”, ao agradecer um “deus te abençoe”, ao fazer uma súplica um “pelo amor de deus”, ao se livrar de algum mal um “graças a deus”, e assim nós fomos fixando e programando em nossa psique e no inconsciente coletivo da humanidade que deus é homem, simplesmente a palavra “Deusa” não faz parte do nosso vocabulário, do nosso dia-a-dia, e palavra é Poder, é mantra, é encantamento! Precisamos resgatar a Deusa, precisamos falar e falar dEla centenas de vezes para nossos amigos, familiares, colegas de trabalho, precisamos assumir Ela em nossas vidas e assim recuperarmos nosso próprio Poder que vem dEla.

A Deusa está aí, Ela sempre esteve, Ela está para quem quiser senti-la, Ela está em todos os lugares, em todas as coisas, apenas esperando que você acorde para Ela, que você abra os olhos um dia e se lembre de agradecer a Ela por estar vivo e por todas as dádivas que Ela nos dá.

Que a Deusa abençoe todos nós.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Bruxaria na Minha Vida

Imagem: Último encontro do Círculo de Mulheres Flores
de Yurema em São Paulo, por Rebecca Becker Fotografia.
É incrível a dificuldade que a gente tem de se reconhecer Bruxa. É mais do que se assumir publicamente, está num nível mais profundo onde você se percebe ou se compreende uma Bruxa.

A Bruxaria surgiu na minha vida, desta forma conceituada, tá? Porque eu já vivia em um mundo mágico desde que me conheço por gente, vendo animais selvagens que ninguém mais via (como onças) pela janela do carro quando viajava e passava pela Serra, apertando os olhos enquanto olhava para o mar, chamando e procurando atentamente por sereias, conversando com duendes, e vendo vultos escuros nas paredes (eu sempre tive medo de fantasmas)... Mas a Bruxaria mesmo surgiu na minha vida com este nome quando eu tinha entre 11 e 13 anos, eu mal consigo te dizer como isso aconteceu, sei que eu amava ver filmes de bruxas e achava que aquilo era real e ficava aguardando o dia em que eu iria “descobrir” que eu era uma bruxa também, nessa época eu já comprava revistas de signos e anjos e já colecionava bibelôs de anjinhos, fadas e pirâmides, tudo o que parecia místico eu queria, então surgiu uma revistinha clássica para o público infantil chamada “Witch” e lá eu soube que existiam pessoas que praticavam mesmo a Bruxaria, e que inclusive existia uma escola de magia, mas que infelizmente eu não poderia ir, pois era distante e minha família não tinha dinheiro para me pagar mais uma “escola”, além de acharem que tudo isso era uma fase e uma fantasia infantil.

Nessa mesma época tivemos o nosso primeiro computador em casa, e logo a internet, e ali eu procurava sites sobre Bruxaria e às vezes acessava salas de “bate-papo”, mesmo sendo menor de idade. Fiz minha mãe me levar até uma biblioteca perto de casa e consegui uns livros emprestados sobre Bruxaria antiga e cristais, até tentei fabricar cristais com açúcar, mas não deu certo para minha frustração infantil... E, olha, eu era tão séria que me lembro que tinha deixado certa vez um cristal de quartzo (pedra considerada do meu signo, Leão) numa concha com água e sal grosso tomando banho de sol e lua para energizar e meu pai para brincar comigo colocou esse cristal dentro da boca e eu até chorei de raiva, me sentia desrespeitada, mesmo sendo uma criança.

Eu tinha uma vizinha do lado de casa, era a minha melhor amiga, e eu acabei trazendo essas ideias para ela e juntas nós tentamos fazer um feitiço uma vez de um desses livros da biblioteca, que faria um papel sumir (era um teste apenas), tínhamos tanto medo que rezamos um “Pai-Nosso” antes e lemos o encantamento com uma Bíblia aberta do nosso lado... Nada aconteceu... E nada acontecia, nunca...

No meu aniversário de 13 anos ganhei de presente de algum familiar (porque eu tinha pedido, claro) o meu primeiro livro de Bruxaria, “Bruxaria Natural - Uma Escolade Magia” da Tânia Gori, a fundadora daquela escola de magia divulgada na revistinha Witch. Ali naquele livro as coisas ficavam muito mais claras e reais, mas até um pouco sem graça para uma criança que queria ver coisas fantásticas e sobrenaturais, a Bruxaria parecia tão “natural”, ironicamente... Claro que eu tentei montar um altar, e eu o tive por alguns anos, fiz um “Livro das Sombras” (Grimório), eu me lembro de ter Iemanjá no meu altar, era a deusa mais conhecida para mim naquele tempo, mas nenhum dos meus feitiços era efetivo, talvez por medo, por imaturidade, não sei ao certo, sei que meus pais me mandavam esconder as coisas do altar numa gaveta quando recebíamos visitas e que ele sempre tinha que ser fora de casa no quintal, minha família era de criação Católica não praticante, mas frequentavam Centros Espíritas Kardecistas, que eu ia vez ou outra contrariada, mas eu sempre soube que meu avô por parte de pai benzia e anos depois soube que minha bisavó por parte de mãe também.

Como meus feitiços nunca davam certo, mesmo comprando outros livros, como o Almanaque Wicca que saía nas bancas de jornais, entre outros que eu pegava referências na internet e nesses mesmos livros, eu fui me afastando da Bruxaria quando fui ficando adolescente, sem nunca perder os episódios de visões de vultos, espíritos e sustos durante a noite.

Quando eu já tinha os meus 19 anos e estava naquela correria de faculdade, emprego, vida social e relacionamentos eu tive uma crise de ansiedade depressiva (segundo um psiquiatra), eu comecei a sentir tristezas sem razões aparentes, depois comecei a sentir medo de dormir, medo de escuro, medo de sair sozinha, era terrível, quando meus pais já não sabiam mais o quê fazer comigo me levaram para o hospital, primeiro num clínico geral e em seguida num psiquiatra, claro que todos os problemas que eu estava passando que eram coisas normais da passagem da vida de adolescente para a vida adulta foram classificados como o motivo da minha crise, e me foi receitado um remédio tarja preta que eu não me lembro o nome agora, eu deveria toma-lo por exatamente 20 dias e retornar ao psiquiatra no final desse período. Quando comecei a tomar só me sentia uma ameba, o remédio me ajudou a dormir, e eu dormia muito, como uma morta e continuava sentindo as mesmas coisas ruins de sempre, além de tudo isso eu também tinha visões o tempo todo, coisa que eu não quis relatar ao psiquiatra e nem aos meus pais, por medo de acharem que eu estava enlouquecendo, eu fechava os olhos e via coisas sem sentido, buracos, larvas e outras coisas escuras, era horrível, com isto eu percebi que eu sempre tinha algumas visões de vez em quando, mais quando estava próxima do sono, mas nunca entendia, via pessoas, cenas, coisas que não sei de onde vinham...

No 12º dia do tratamento com o tarja-preta eu quis parar, parei por minha conta e até hoje nunca voltei ao psiquiatra, resolvi retomar meus estudos de Bruxaria, pensava que a Deusa poderia me ajudar, e retomei, mas continuava não sentindo as coisas como eu gostaria de sentir, com profundidade, aos poucos eu fui melhorando da crise, e logo deixei tudo de lado mais uma vez, e minhas visões pararam quase que em definitivo por alguns anos, eu rezava muito para Deus fazer isso parar seja o que isso fosse, e enfim, parou.

Quando eu cheguei mais ou menos nos 22 anos dessa vez a crise foi familiar e não depressiva, houveram muitas brigas entre os meus pais e me envolvendo também de alguma forma e eu me senti no fundo do poço, sem saber onde recorrer, eu me trancava no banheiro e lia “O Evangelho Segundo o Espiritismo” em voz alta algumas vezes enquanto as pessoas se encontravam aos berros e choros. Quando as coisas começaram a se acalmar eu tinha uma ferida muito grande na alma, e comecei a fazer psicoterapia e a frequentar um outro Centro Espírita Kardecista, e nesse meio tempo uma pessoa me falou sobre Ayahuasca, eu já tinha ouvido falar do “Chá do Santo Daime”, mas não fazia ideia de que isso era algo bom, eu já pesquisava enteógenos naturais porque frequentei muitas raves, e mesmo não chegando a experimentar drogas eu gostava da sensação de estar na mata dançando e aquilo me causava certa expansão de consciência, além de todo o contexto tribal hindu que se acredita ter dado origem às raves.

Comecei então a frequentar um Templo Xamânico, no início eu só assistia palestras e às vezes tinham consultas e passes com entidades, pretos-velhos e caboclos, como na Umbanda, que eu ainda não conhecia, achei tudo muito intrigante, e nesse lugar eu sentia as energias, sentia comoção, coisas que nunca senti em Centros Kardecistas. Logo participei do meu primeiro ritual com Ayahuasca nesse lugar, eles possuem uma “ordem iniciática” somente de mulheres, e embora seja tudo bem “indígena”, elas são devotas da deusa Ísis, e ali eu pude sentir a espiritualidade como eu sempre havia ansiado desde a infância, claro que só havia se aberto uma porta e eu ainda havia muito por explorar, mas eu senti um forte desejo de fazer parte daquilo, uma sensação de pertencimento, de reencontro.

Infelizmente, ou felizmente algum tempo depois fui percebendo que o local que eu frequentava era muito comercial, e que você só fazia amigos se você tivesse dinheiro, mas em vez de abandonar este caminho eu fui conhecendo outros Centros que trabalhavam com a Ayahuasca e nesses mais de 4 anos de consagrações, eu vivi muitas coisas incríveis, processos de dor e de primozia extrema como nunca poderia imaginar. Como muitos lugares que frequentei eram de orientação Universalista acabei conhecendo também outras religiões, como o Hare Krishna, no qual recebi iniciação apesar de hoje não me considerar desta religião, e assim fui me abrindo para muitas outras linhas, também desenvolvi a mediunidade na Umbanda por um ano, mas também acabei me afastando, as religiões institucionalizadas sempre acabavam me afastando, e o mesmo aconteceu com o Santo Daime quando conheci essa vertente.

Nessa peregrinação espiritual ardente e frenética que eu vivi nesses 4 anos procurando, na verdade, por mim mesma de alguma forma, eu acabei conhecendo o Sagrado Feminino e os Círculos de Mulheres, na verdade essa minha primeira consagração de Ayahuasca era um ritual do Sagrado Feminino já, mas essa parte da espiritualidade só foi se aprofundar mesmo nas vivências de Círculos de Mulheres que participei mais adiante, há pouco mais de 2 anos atrás. Foi quando comecei a trabalhar o sangue menstrual ritualisticamente, parei de tomar hormônios anticoncepcionais, usar absorventes de algodão e passei a me alinhar mais com a Lua e os fluxos da natureza, e as duas coisas foram se alinhando dentro de mim, o Xamanismo Ayahuasqueiro e o culto ao Sagrado Feminino, que na verdade é o culto antigo da Deusa ressurgindo como um meio de curar a mulher e a humanidade.

Criei um Círculo de Mulheres público e gratuito, o Flores de Yurema, e também passei a realizar alguns rituais solitários do Sagrado Feminino em casa, cada vez mais, até perceber que praticamente se formava uma rotina de culto em minha vida, algumas divindades começaram a surgir e a ganhar uma importância especial, algumas divindades masculinas surgiram também, mas percebi que o meu culto principal sempre será ao Feminino.

Devo lembrar que em 2014 eu recebi a instrução de que eu faria um trabalho do Sagrado Feminino com Ayahuasca, e no desenrolar das coisas essa missão se mostrou muito maior do que eu esperava e hoje eu e meu companheiro temos um projeto de um Templo Universalista que trabalhará com Ayahuasca, o TEU Luzes da Rainha, que está sendo construído e nós estamos recebendo desde então o devido preparo para tal.

Chegando até aqui o que eu percebo é uma vida inteira tentando encontrar essa Bruxa que estava perdida aqui dentro e que encontrei através das Plantas de Poder e do Xamanismo, e que acabou ganhando uma grande missão. Quando falamos de Xamanismo parece moderno, exótico, “diferentão”, e quando se fala em Bruxaria a gente ouve “você é ‘bruxinha’?”, entre risos, sinto essa palavra extremamente estigmatizada, como infantil ou como “coisa do mal”, sinto que hoje até os cultos religiosos de matriz africana que já sofreram tanto preconceito ganharam mais respeito do que a Bruxaria, afinal, eles se institucionalizaram como uma religião, e a Bruxaria não, muito embora exista a Wicca, ela não contempla toda a Bruxaria em sua infinitude.


Bruxaria é liberdade, bruxaria está além de bem e mal, de “pode” e “não pode”, está além de qualquer caixa que tentem colocá-la, eu gosto de diferir a Bruxaria do Xamanismo muito mais pela forma de culto atual do que pela essência, porque na essência eu não vejo diferença, quem pratica Xamanismo, pratica Bruxaria, é um fato, mas é claro que ocorreram diferenciações ao longo dos anos, e a palavra Xamanismo no contexto acadêmico hoje é relativamente nova com relação ao termo Bruxaria, eu explico melhor essa relação entre um e outro neste texto aqui: Xamanismo e Bruxaria.

Enfim... Percebi o quanto eu ainda nego em mim a Bruxaria, o quanto eu ainda considero “mais legal” ou “mais adequado” falar que sou “xamanista”, “universalista” do que simplesmente vomitar na cara da sociedade “SOU BRUXA”. Xamanista define melhor meu campo de estudo e atuação, que é com plantas de poder e cura, e universalista só explica a minha crença que é o reconhecimento do Divino em todas as divindades e seres de culturas diferentes e suas formas de culto (muitas bruxas podem ser consideradas universalistas), mas Bruxa é o que sou, uma mulher que transforma, dentro e fora, que não simplesmente aceita a vida com resignação e fatalidade (pelo menos não o tempo todo), e que atua manipulando com sabedoria os elementos em seu favor, em favor do próximo e da própria natureza, uma Bruxa também é uma guardiã da natureza por excelência, pois é dela que ela tira os elementos para poder praticar a sua magia, e por isso vive com ela em harmonia, zela por ela, reconhece o Poder em todas as coisas e por isso o respeita, sobretudo, sem temor, a Bruxa é uma amiga dos deuses, a eles confessa suas maiores dores, medos e aflições, e com eles celebra suas alegrias, conquistas e amores e a eles ela roga, de dentro de si a Presença que conforta, consola e ampara a sua comunidade, a Bruxa é o receptáculo do Divino.

Eu Sou Bruxa.