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terça-feira, 3 de julho de 2018
Espiritualidade Estereotipada e Doutrinatória: Liberte-se!
Por muito tempo acreditei que o propósito da vida era se libertar de tudo isso, por muito tempo acreditei que eu era alguém importante, especial e que eu precisava "salvar o mundo", por quê não eu? Me inspirei em mestres e dediquei anos a aprender sobre espiritualidade, viver espiritualidade, abandonar hábitos e coisas consideradas "mundanas" e assim fui entrando em uma "caixa" onde ficavam os estereótipos sobre espiritualidade, sem perceber que aquilo TAMBÉM era uma caixa e que aquilo TAMBÉM me limitava.
Cultivei o sonho de abrir um centro espiritual e muitas vezes cheguei perto, mas nunca concluí a "missão", nesse meio tempo eu tive problemas financeiros, problemas familiares, poucos amigos e também depressão, ansiedade e até pânico. Por que será que aconteceu isso comigo? Logo eu, tão "espiritualizada"? Porque quanto mais eu me aproximava desse conceito social do que é ser uma pessoa espiritualizada, mais de mim eu me distanciava, daquela coisa que nos torna especiais que é a originalidade, o que temos de único, nossa "digital", aquele algo que te torna indivíduo.
Deixei de ouvir as músicas que eu gostava, de ir em lugares que eu gostava, de usar as roupas que eu gostava, deixei toda a cultura que eu possuía se reduzir a uma "cultura espiritualizada".
Me fragmentei.
Eu não sei ao certo quando foi que eu acordei, mas agora eu consigo ver com clareza, a minha primeira missão é comigo, é algo como relembrar da infância, antes dos filtros sociais serem "introjetados" em nossas mentes, se há algo a se libertar é dessa ditadura que te diz como você deve ser, não importa de onde ela venha ou o quão boa ela pareça, toda doutrinação te retalha em pedaços, mas a gente não vê...
Ayahuasca deveria ser algo para nos libertar, assim como outras Plantas de Poder, mas colocamos nela nossas músicas que dizem o que fazer e como devemos ser, colocamos nela rituais rígidos que limitam a sua atuação, e pior, a utilizamos como meio de introjetar mais fundo no seu inconsciente o que nós humanos acreditamos ser o melhor para você, ignorando toda a sua individualidade. É claro que de alguma forma isto salvou algumas pessoas de alguma desgraça maior como quando sedamos alguém em estado de loucura para que ela não se machuque, aí a tratamos como criança, mas uma hora ela precisa acordar, lidar com suas próprias sombras, uma horas a criança precisa crescer, tomar as rédeas da própria vida...
Eu sigo fazendo um caminho de volta, de retorno a mim mesma, mais do que espiritual, um caminho de autoconhecimento. Não pense que estará se conhecendo enquanto ouve como você deve ser e tenta se enquadrar naquilo. Aquilo que "devemos" ser, que é quem somos, em essência, não precisa de esforço, é só ser.
Não existe cura sem liberdade.
Nasci na Terra, com todas as suas belezas, nasci humana com minhas potencialidades e talentos, isso é temporário, então em vez de tentar sair daqui não seria mais sábio aproveitar até o último minuto?
A Terra não é uma prisão, a única prisão que existe é mental, tudo é Sagrado, tudo é Divino. Você não precisa sair de onde está para se tornar espiritualizado, você só precisa espiritualizar tudo o que você já é, perceber a beleza do seu corpo, da sua natureza, dos seus talentos, da sua voz e de tudo o que você cria, de tudo o que faz.
Estar presente, conectado, inteiro e feliz, isso é espiritualidade, todo o restante é dispensável.
Seja você mesmo, é isso o que mais importa, é só isso o que a Deusa (ou Deus, ou Universo, ou como queira chamar) quer de nós.
A natureza selvagem só é perfeita porque ela não se pergunta o que deve fazer, ela apenas vive.
Apenas viva.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
A Bruxaria na Minha Vida
![]() |
| Imagem: Último encontro do Círculo de Mulheres Flores de Yurema em São Paulo, por Rebecca Becker Fotografia. |
É incrível a dificuldade que a
gente tem de se reconhecer Bruxa. É mais do que se assumir publicamente, está
num nível mais profundo onde você se percebe ou se compreende uma Bruxa.
A Bruxaria surgiu na minha vida, desta forma conceituada, tá? Porque eu já vivia em um mundo mágico desde que me conheço por gente, vendo animais selvagens que ninguém mais via (como onças) pela janela do carro quando viajava e passava pela Serra, apertando os olhos enquanto olhava para o mar, chamando e procurando atentamente por sereias, conversando com duendes, e vendo vultos escuros nas paredes (eu sempre tive medo de fantasmas)... Mas a Bruxaria mesmo surgiu na minha vida com este nome quando eu tinha entre 11 e 13 anos, eu mal consigo te dizer como isso aconteceu, sei que eu amava ver filmes de bruxas e achava que aquilo era real e ficava aguardando o dia em que eu iria “descobrir” que eu era uma bruxa também, nessa época eu já comprava revistas de signos e anjos e já colecionava bibelôs de anjinhos, fadas e pirâmides, tudo o que parecia místico eu queria, então surgiu uma revistinha clássica para o público infantil chamada “Witch” e lá eu soube que existiam pessoas que praticavam mesmo a Bruxaria, e que inclusive existia uma escola de magia, mas que infelizmente eu não poderia ir, pois era distante e minha família não tinha dinheiro para me pagar mais uma “escola”, além de acharem que tudo isso era uma fase e uma fantasia infantil.
Nessa mesma época tivemos o nosso primeiro computador em casa, e logo a internet, e ali eu procurava sites sobre Bruxaria e às vezes acessava salas de “bate-papo”, mesmo sendo menor de idade. Fiz minha mãe me levar até uma biblioteca perto de casa e consegui uns livros emprestados sobre Bruxaria antiga e cristais, até tentei fabricar cristais com açúcar, mas não deu certo para minha frustração infantil... E, olha, eu era tão séria que me lembro que tinha deixado certa vez um cristal de quartzo (pedra considerada do meu signo, Leão) numa concha com água e sal grosso tomando banho de sol e lua para energizar e meu pai para brincar comigo colocou esse cristal dentro da boca e eu até chorei de raiva, me sentia desrespeitada, mesmo sendo uma criança.
Eu tinha uma vizinha do lado de casa, era a minha melhor amiga, e eu acabei trazendo essas ideias para ela e juntas nós tentamos fazer um feitiço uma vez de um desses livros da biblioteca, que faria um papel sumir (era um teste apenas), tínhamos tanto medo que rezamos um “Pai-Nosso” antes e lemos o encantamento com uma Bíblia aberta do nosso lado... Nada aconteceu... E nada acontecia, nunca...
No meu aniversário de 13 anos ganhei de presente de algum familiar (porque eu tinha pedido, claro) o meu primeiro livro de Bruxaria, “Bruxaria Natural - Uma Escolade Magia” da Tânia Gori, a fundadora daquela escola de magia divulgada na revistinha Witch. Ali naquele livro as coisas ficavam muito mais claras e reais, mas até um pouco sem graça para uma criança que queria ver coisas fantásticas e sobrenaturais, a Bruxaria parecia tão “natural”, ironicamente... Claro que eu tentei montar um altar, e eu o tive por alguns anos, fiz um “Livro das Sombras” (Grimório), eu me lembro de ter Iemanjá no meu altar, era a deusa mais conhecida para mim naquele tempo, mas nenhum dos meus feitiços era efetivo, talvez por medo, por imaturidade, não sei ao certo, sei que meus pais me mandavam esconder as coisas do altar numa gaveta quando recebíamos visitas e que ele sempre tinha que ser fora de casa no quintal, minha família era de criação Católica não praticante, mas frequentavam Centros Espíritas Kardecistas, que eu ia vez ou outra contrariada, mas eu sempre soube que meu avô por parte de pai benzia e anos depois soube que minha bisavó por parte de mãe também.
Como meus feitiços nunca davam certo, mesmo comprando outros livros, como o Almanaque Wicca que saía nas bancas de jornais, entre outros que eu pegava referências na internet e nesses mesmos livros, eu fui me afastando da Bruxaria quando fui ficando adolescente, sem nunca perder os episódios de visões de vultos, espíritos e sustos durante a noite.
Quando eu já tinha os meus 19 anos e estava naquela correria de faculdade, emprego, vida social e relacionamentos eu tive uma crise de ansiedade depressiva (segundo um psiquiatra), eu comecei a sentir tristezas sem razões aparentes, depois comecei a sentir medo de dormir, medo de escuro, medo de sair sozinha, era terrível, quando meus pais já não sabiam mais o quê fazer comigo me levaram para o hospital, primeiro num clínico geral e em seguida num psiquiatra, claro que todos os problemas que eu estava passando que eram coisas normais da passagem da vida de adolescente para a vida adulta foram classificados como o motivo da minha crise, e me foi receitado um remédio tarja preta que eu não me lembro o nome agora, eu deveria toma-lo por exatamente 20 dias e retornar ao psiquiatra no final desse período. Quando comecei a tomar só me sentia uma ameba, o remédio me ajudou a dormir, e eu dormia muito, como uma morta e continuava sentindo as mesmas coisas ruins de sempre, além de tudo isso eu também tinha visões o tempo todo, coisa que eu não quis relatar ao psiquiatra e nem aos meus pais, por medo de acharem que eu estava enlouquecendo, eu fechava os olhos e via coisas sem sentido, buracos, larvas e outras coisas escuras, era horrível, com isto eu percebi que eu sempre tinha algumas visões de vez em quando, mais quando estava próxima do sono, mas nunca entendia, via pessoas, cenas, coisas que não sei de onde vinham...
No 12º dia do tratamento com o tarja-preta eu quis parar, parei por minha conta e até hoje nunca voltei ao psiquiatra, resolvi retomar meus estudos de Bruxaria, pensava que a Deusa poderia me ajudar, e retomei, mas continuava não sentindo as coisas como eu gostaria de sentir, com profundidade, aos poucos eu fui melhorando da crise, e logo deixei tudo de lado mais uma vez, e minhas visões pararam quase que em definitivo por alguns anos, eu rezava muito para Deus fazer isso parar seja o que isso fosse, e enfim, parou.
Quando eu cheguei mais ou menos nos 22 anos dessa vez a crise foi familiar e não depressiva, houveram muitas brigas entre os meus pais e me envolvendo também de alguma forma e eu me senti no fundo do poço, sem saber onde recorrer, eu me trancava no banheiro e lia “O Evangelho Segundo o Espiritismo” em voz alta algumas vezes enquanto as pessoas se encontravam aos berros e choros. Quando as coisas começaram a se acalmar eu tinha uma ferida muito grande na alma, e comecei a fazer psicoterapia e a frequentar um outro Centro Espírita Kardecista, e nesse meio tempo uma pessoa me falou sobre Ayahuasca, eu já tinha ouvido falar do “Chá do Santo Daime”, mas não fazia ideia de que isso era algo bom, eu já pesquisava enteógenos naturais porque frequentei muitas raves, e mesmo não chegando a experimentar drogas eu gostava da sensação de estar na mata dançando e aquilo me causava certa expansão de consciência, além de todo o contexto tribal hindu que se acredita ter dado origem às raves.
Comecei então a frequentar um Templo Xamânico, no início eu só assistia palestras e às vezes tinham consultas e passes com entidades, pretos-velhos e caboclos, como na Umbanda, que eu ainda não conhecia, achei tudo muito intrigante, e nesse lugar eu sentia as energias, sentia comoção, coisas que nunca senti em Centros Kardecistas. Logo participei do meu primeiro ritual com Ayahuasca nesse lugar, eles possuem uma “ordem iniciática” somente de mulheres, e embora seja tudo bem “indígena”, elas são devotas da deusa Ísis, e ali eu pude sentir a espiritualidade como eu sempre havia ansiado desde a infância, claro que só havia se aberto uma porta e eu ainda havia muito por explorar, mas eu senti um forte desejo de fazer parte daquilo, uma sensação de pertencimento, de reencontro.
Infelizmente, ou felizmente algum tempo depois fui percebendo que o local que eu frequentava era muito comercial, e que você só fazia amigos se você tivesse dinheiro, mas em vez de abandonar este caminho eu fui conhecendo outros Centros que trabalhavam com a Ayahuasca e nesses mais de 4 anos de consagrações, eu vivi muitas coisas incríveis, processos de dor e de primozia extrema como nunca poderia imaginar. Como muitos lugares que frequentei eram de orientação Universalista acabei conhecendo também outras religiões, como o Hare Krishna, no qual recebi iniciação apesar de hoje não me considerar desta religião, e assim fui me abrindo para muitas outras linhas, também desenvolvi a mediunidade na Umbanda por um ano, mas também acabei me afastando, as religiões institucionalizadas sempre acabavam me afastando, e o mesmo aconteceu com o Santo Daime quando conheci essa vertente.
Nessa peregrinação espiritual ardente e frenética que eu vivi nesses 4 anos procurando, na verdade, por mim mesma de alguma forma, eu acabei conhecendo o Sagrado Feminino e os Círculos de Mulheres, na verdade essa minha primeira consagração de Ayahuasca era um ritual do Sagrado Feminino já, mas essa parte da espiritualidade só foi se aprofundar mesmo nas vivências de Círculos de Mulheres que participei mais adiante, há pouco mais de 2 anos atrás. Foi quando comecei a trabalhar o sangue menstrual ritualisticamente, parei de tomar hormônios anticoncepcionais, usar absorventes de algodão e passei a me alinhar mais com a Lua e os fluxos da natureza, e as duas coisas foram se alinhando dentro de mim, o Xamanismo Ayahuasqueiro e o culto ao Sagrado Feminino, que na verdade é o culto antigo da Deusa ressurgindo como um meio de curar a mulher e a humanidade.
Criei um Círculo de Mulheres público e gratuito, o Flores de Yurema, e também passei a realizar alguns rituais solitários do Sagrado Feminino em casa, cada vez mais, até perceber que praticamente se formava uma rotina de culto em minha vida, algumas divindades começaram a surgir e a ganhar uma importância especial, algumas divindades masculinas surgiram também, mas percebi que o meu culto principal sempre será ao Feminino.
Devo lembrar que em 2014 eu recebi a instrução de que eu faria um trabalho do Sagrado Feminino com Ayahuasca, e no desenrolar das coisas essa missão se mostrou muito maior do que eu esperava e hoje eu e meu companheiro temos um projeto de um Templo Universalista que trabalhará com Ayahuasca, o TEU Luzes da Rainha, que está sendo construído e nós estamos recebendo desde então o devido preparo para tal.
Chegando até aqui o que eu percebo é uma vida inteira tentando encontrar essa Bruxa que estava perdida aqui dentro e que encontrei através das Plantas de Poder e do Xamanismo, e que acabou ganhando uma grande missão. Quando falamos de Xamanismo parece moderno, exótico, “diferentão”, e quando se fala em Bruxaria a gente ouve “você é ‘bruxinha’?”, entre risos, sinto essa palavra extremamente estigmatizada, como infantil ou como “coisa do mal”, sinto que hoje até os cultos religiosos de matriz africana que já sofreram tanto preconceito ganharam mais respeito do que a Bruxaria, afinal, eles se institucionalizaram como uma religião, e a Bruxaria não, muito embora exista a Wicca, ela não contempla toda a Bruxaria em sua infinitude.
A Bruxaria surgiu na minha vida, desta forma conceituada, tá? Porque eu já vivia em um mundo mágico desde que me conheço por gente, vendo animais selvagens que ninguém mais via (como onças) pela janela do carro quando viajava e passava pela Serra, apertando os olhos enquanto olhava para o mar, chamando e procurando atentamente por sereias, conversando com duendes, e vendo vultos escuros nas paredes (eu sempre tive medo de fantasmas)... Mas a Bruxaria mesmo surgiu na minha vida com este nome quando eu tinha entre 11 e 13 anos, eu mal consigo te dizer como isso aconteceu, sei que eu amava ver filmes de bruxas e achava que aquilo era real e ficava aguardando o dia em que eu iria “descobrir” que eu era uma bruxa também, nessa época eu já comprava revistas de signos e anjos e já colecionava bibelôs de anjinhos, fadas e pirâmides, tudo o que parecia místico eu queria, então surgiu uma revistinha clássica para o público infantil chamada “Witch” e lá eu soube que existiam pessoas que praticavam mesmo a Bruxaria, e que inclusive existia uma escola de magia, mas que infelizmente eu não poderia ir, pois era distante e minha família não tinha dinheiro para me pagar mais uma “escola”, além de acharem que tudo isso era uma fase e uma fantasia infantil.
Nessa mesma época tivemos o nosso primeiro computador em casa, e logo a internet, e ali eu procurava sites sobre Bruxaria e às vezes acessava salas de “bate-papo”, mesmo sendo menor de idade. Fiz minha mãe me levar até uma biblioteca perto de casa e consegui uns livros emprestados sobre Bruxaria antiga e cristais, até tentei fabricar cristais com açúcar, mas não deu certo para minha frustração infantil... E, olha, eu era tão séria que me lembro que tinha deixado certa vez um cristal de quartzo (pedra considerada do meu signo, Leão) numa concha com água e sal grosso tomando banho de sol e lua para energizar e meu pai para brincar comigo colocou esse cristal dentro da boca e eu até chorei de raiva, me sentia desrespeitada, mesmo sendo uma criança.
Eu tinha uma vizinha do lado de casa, era a minha melhor amiga, e eu acabei trazendo essas ideias para ela e juntas nós tentamos fazer um feitiço uma vez de um desses livros da biblioteca, que faria um papel sumir (era um teste apenas), tínhamos tanto medo que rezamos um “Pai-Nosso” antes e lemos o encantamento com uma Bíblia aberta do nosso lado... Nada aconteceu... E nada acontecia, nunca...
No meu aniversário de 13 anos ganhei de presente de algum familiar (porque eu tinha pedido, claro) o meu primeiro livro de Bruxaria, “Bruxaria Natural - Uma Escolade Magia” da Tânia Gori, a fundadora daquela escola de magia divulgada na revistinha Witch. Ali naquele livro as coisas ficavam muito mais claras e reais, mas até um pouco sem graça para uma criança que queria ver coisas fantásticas e sobrenaturais, a Bruxaria parecia tão “natural”, ironicamente... Claro que eu tentei montar um altar, e eu o tive por alguns anos, fiz um “Livro das Sombras” (Grimório), eu me lembro de ter Iemanjá no meu altar, era a deusa mais conhecida para mim naquele tempo, mas nenhum dos meus feitiços era efetivo, talvez por medo, por imaturidade, não sei ao certo, sei que meus pais me mandavam esconder as coisas do altar numa gaveta quando recebíamos visitas e que ele sempre tinha que ser fora de casa no quintal, minha família era de criação Católica não praticante, mas frequentavam Centros Espíritas Kardecistas, que eu ia vez ou outra contrariada, mas eu sempre soube que meu avô por parte de pai benzia e anos depois soube que minha bisavó por parte de mãe também.
Como meus feitiços nunca davam certo, mesmo comprando outros livros, como o Almanaque Wicca que saía nas bancas de jornais, entre outros que eu pegava referências na internet e nesses mesmos livros, eu fui me afastando da Bruxaria quando fui ficando adolescente, sem nunca perder os episódios de visões de vultos, espíritos e sustos durante a noite.
Quando eu já tinha os meus 19 anos e estava naquela correria de faculdade, emprego, vida social e relacionamentos eu tive uma crise de ansiedade depressiva (segundo um psiquiatra), eu comecei a sentir tristezas sem razões aparentes, depois comecei a sentir medo de dormir, medo de escuro, medo de sair sozinha, era terrível, quando meus pais já não sabiam mais o quê fazer comigo me levaram para o hospital, primeiro num clínico geral e em seguida num psiquiatra, claro que todos os problemas que eu estava passando que eram coisas normais da passagem da vida de adolescente para a vida adulta foram classificados como o motivo da minha crise, e me foi receitado um remédio tarja preta que eu não me lembro o nome agora, eu deveria toma-lo por exatamente 20 dias e retornar ao psiquiatra no final desse período. Quando comecei a tomar só me sentia uma ameba, o remédio me ajudou a dormir, e eu dormia muito, como uma morta e continuava sentindo as mesmas coisas ruins de sempre, além de tudo isso eu também tinha visões o tempo todo, coisa que eu não quis relatar ao psiquiatra e nem aos meus pais, por medo de acharem que eu estava enlouquecendo, eu fechava os olhos e via coisas sem sentido, buracos, larvas e outras coisas escuras, era horrível, com isto eu percebi que eu sempre tinha algumas visões de vez em quando, mais quando estava próxima do sono, mas nunca entendia, via pessoas, cenas, coisas que não sei de onde vinham...
No 12º dia do tratamento com o tarja-preta eu quis parar, parei por minha conta e até hoje nunca voltei ao psiquiatra, resolvi retomar meus estudos de Bruxaria, pensava que a Deusa poderia me ajudar, e retomei, mas continuava não sentindo as coisas como eu gostaria de sentir, com profundidade, aos poucos eu fui melhorando da crise, e logo deixei tudo de lado mais uma vez, e minhas visões pararam quase que em definitivo por alguns anos, eu rezava muito para Deus fazer isso parar seja o que isso fosse, e enfim, parou.
Quando eu cheguei mais ou menos nos 22 anos dessa vez a crise foi familiar e não depressiva, houveram muitas brigas entre os meus pais e me envolvendo também de alguma forma e eu me senti no fundo do poço, sem saber onde recorrer, eu me trancava no banheiro e lia “O Evangelho Segundo o Espiritismo” em voz alta algumas vezes enquanto as pessoas se encontravam aos berros e choros. Quando as coisas começaram a se acalmar eu tinha uma ferida muito grande na alma, e comecei a fazer psicoterapia e a frequentar um outro Centro Espírita Kardecista, e nesse meio tempo uma pessoa me falou sobre Ayahuasca, eu já tinha ouvido falar do “Chá do Santo Daime”, mas não fazia ideia de que isso era algo bom, eu já pesquisava enteógenos naturais porque frequentei muitas raves, e mesmo não chegando a experimentar drogas eu gostava da sensação de estar na mata dançando e aquilo me causava certa expansão de consciência, além de todo o contexto tribal hindu que se acredita ter dado origem às raves.
Comecei então a frequentar um Templo Xamânico, no início eu só assistia palestras e às vezes tinham consultas e passes com entidades, pretos-velhos e caboclos, como na Umbanda, que eu ainda não conhecia, achei tudo muito intrigante, e nesse lugar eu sentia as energias, sentia comoção, coisas que nunca senti em Centros Kardecistas. Logo participei do meu primeiro ritual com Ayahuasca nesse lugar, eles possuem uma “ordem iniciática” somente de mulheres, e embora seja tudo bem “indígena”, elas são devotas da deusa Ísis, e ali eu pude sentir a espiritualidade como eu sempre havia ansiado desde a infância, claro que só havia se aberto uma porta e eu ainda havia muito por explorar, mas eu senti um forte desejo de fazer parte daquilo, uma sensação de pertencimento, de reencontro.
Infelizmente, ou felizmente algum tempo depois fui percebendo que o local que eu frequentava era muito comercial, e que você só fazia amigos se você tivesse dinheiro, mas em vez de abandonar este caminho eu fui conhecendo outros Centros que trabalhavam com a Ayahuasca e nesses mais de 4 anos de consagrações, eu vivi muitas coisas incríveis, processos de dor e de primozia extrema como nunca poderia imaginar. Como muitos lugares que frequentei eram de orientação Universalista acabei conhecendo também outras religiões, como o Hare Krishna, no qual recebi iniciação apesar de hoje não me considerar desta religião, e assim fui me abrindo para muitas outras linhas, também desenvolvi a mediunidade na Umbanda por um ano, mas também acabei me afastando, as religiões institucionalizadas sempre acabavam me afastando, e o mesmo aconteceu com o Santo Daime quando conheci essa vertente.
Nessa peregrinação espiritual ardente e frenética que eu vivi nesses 4 anos procurando, na verdade, por mim mesma de alguma forma, eu acabei conhecendo o Sagrado Feminino e os Círculos de Mulheres, na verdade essa minha primeira consagração de Ayahuasca era um ritual do Sagrado Feminino já, mas essa parte da espiritualidade só foi se aprofundar mesmo nas vivências de Círculos de Mulheres que participei mais adiante, há pouco mais de 2 anos atrás. Foi quando comecei a trabalhar o sangue menstrual ritualisticamente, parei de tomar hormônios anticoncepcionais, usar absorventes de algodão e passei a me alinhar mais com a Lua e os fluxos da natureza, e as duas coisas foram se alinhando dentro de mim, o Xamanismo Ayahuasqueiro e o culto ao Sagrado Feminino, que na verdade é o culto antigo da Deusa ressurgindo como um meio de curar a mulher e a humanidade.
Criei um Círculo de Mulheres público e gratuito, o Flores de Yurema, e também passei a realizar alguns rituais solitários do Sagrado Feminino em casa, cada vez mais, até perceber que praticamente se formava uma rotina de culto em minha vida, algumas divindades começaram a surgir e a ganhar uma importância especial, algumas divindades masculinas surgiram também, mas percebi que o meu culto principal sempre será ao Feminino.
Devo lembrar que em 2014 eu recebi a instrução de que eu faria um trabalho do Sagrado Feminino com Ayahuasca, e no desenrolar das coisas essa missão se mostrou muito maior do que eu esperava e hoje eu e meu companheiro temos um projeto de um Templo Universalista que trabalhará com Ayahuasca, o TEU Luzes da Rainha, que está sendo construído e nós estamos recebendo desde então o devido preparo para tal.
Chegando até aqui o que eu percebo é uma vida inteira tentando encontrar essa Bruxa que estava perdida aqui dentro e que encontrei através das Plantas de Poder e do Xamanismo, e que acabou ganhando uma grande missão. Quando falamos de Xamanismo parece moderno, exótico, “diferentão”, e quando se fala em Bruxaria a gente ouve “você é ‘bruxinha’?”, entre risos, sinto essa palavra extremamente estigmatizada, como infantil ou como “coisa do mal”, sinto que hoje até os cultos religiosos de matriz africana que já sofreram tanto preconceito ganharam mais respeito do que a Bruxaria, afinal, eles se institucionalizaram como uma religião, e a Bruxaria não, muito embora exista a Wicca, ela não contempla toda a Bruxaria em sua infinitude.
Bruxaria é liberdade, bruxaria
está além de bem e mal, de “pode” e “não pode”, está além de qualquer caixa que
tentem colocá-la, eu gosto de diferir a Bruxaria do Xamanismo muito mais pela
forma de culto atual do que pela essência, porque na essência eu não vejo
diferença, quem pratica Xamanismo, pratica Bruxaria, é um fato, mas é claro que
ocorreram diferenciações ao longo dos anos, e a palavra Xamanismo no contexto
acadêmico hoje é relativamente nova com relação ao termo Bruxaria, eu explico
melhor essa relação entre um e outro neste texto aqui: Xamanismo e Bruxaria.
Enfim... Percebi o quanto eu ainda nego em mim a Bruxaria, o quanto eu ainda considero “mais legal” ou “mais adequado” falar que sou “xamanista”, “universalista” do que simplesmente vomitar na cara da sociedade “SOU BRUXA”. Xamanista define melhor meu campo de estudo e atuação, que é com plantas de poder e cura, e universalista só explica a minha crença que é o reconhecimento do Divino em todas as divindades e seres de culturas diferentes e suas formas de culto (muitas bruxas podem ser consideradas universalistas), mas Bruxa é o que sou, uma mulher que transforma, dentro e fora, que não simplesmente aceita a vida com resignação e fatalidade (pelo menos não o tempo todo), e que atua manipulando com sabedoria os elementos em seu favor, em favor do próximo e da própria natureza, uma Bruxa também é uma guardiã da natureza por excelência, pois é dela que ela tira os elementos para poder praticar a sua magia, e por isso vive com ela em harmonia, zela por ela, reconhece o Poder em todas as coisas e por isso o respeita, sobretudo, sem temor, a Bruxa é uma amiga dos deuses, a eles confessa suas maiores dores, medos e aflições, e com eles celebra suas alegrias, conquistas e amores e a eles ela roga, de dentro de si a Presença que conforta, consola e ampara a sua comunidade, a Bruxa é o receptáculo do Divino.
Eu Sou Bruxa.
Enfim... Percebi o quanto eu ainda nego em mim a Bruxaria, o quanto eu ainda considero “mais legal” ou “mais adequado” falar que sou “xamanista”, “universalista” do que simplesmente vomitar na cara da sociedade “SOU BRUXA”. Xamanista define melhor meu campo de estudo e atuação, que é com plantas de poder e cura, e universalista só explica a minha crença que é o reconhecimento do Divino em todas as divindades e seres de culturas diferentes e suas formas de culto (muitas bruxas podem ser consideradas universalistas), mas Bruxa é o que sou, uma mulher que transforma, dentro e fora, que não simplesmente aceita a vida com resignação e fatalidade (pelo menos não o tempo todo), e que atua manipulando com sabedoria os elementos em seu favor, em favor do próximo e da própria natureza, uma Bruxa também é uma guardiã da natureza por excelência, pois é dela que ela tira os elementos para poder praticar a sua magia, e por isso vive com ela em harmonia, zela por ela, reconhece o Poder em todas as coisas e por isso o respeita, sobretudo, sem temor, a Bruxa é uma amiga dos deuses, a eles confessa suas maiores dores, medos e aflições, e com eles celebra suas alegrias, conquistas e amores e a eles ela roga, de dentro de si a Presença que conforta, consola e ampara a sua comunidade, a Bruxa é o receptáculo do Divino.
Eu Sou Bruxa.
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quarta-feira, 30 de agosto de 2017
III. O que NÃO É “Sagrado” Feminino? - Os Círculos de Mulheres Terapêuticos
Antes de continuar com os artigos da série sobre os rituais, acabou parecendo bem mais urgente nesse momento explicar o que NÃO É de fato Sagrado Feminino, no seu sentido mais estrito, pois TUDO é Sagrado. Muitas pessoas têm vindo me perguntar e pedir explicações maiores acerca da minha posição contra as cobranças dentro dos Círculos Sagrados, até mesmo algumas pessoas chegam a pensar que eu acho que Terapia tem que ser de graça, hehe. Não, gente. Isso prova que equivocadamente as pessoas estão em sua maioria simplesmente achando que Sagrado Feminino É Terapia Holística. Mas não é...

Pessoal, o que vêm ocorrendo é uma confusão do que é e do
que não é tal coisa, com todo o respeito, se alguém está realizando uma
atividade PAGA divulgada como sendo do Sagrado Feminino, das duas uma: Ou essa pessoa
não teve o devido esclarecimento do que é o “Sagrado” Feminino, ou essa pessoa
não teve o devido esclarecimento do que é a Terapia Holística.
Nos textos anteriores nós explicamos os Círculos de
Mulheres “Sagrados”, ou Ritualísticos, que podemos colocá-los então como sendo
o “culto ao Sagrado Feminino”, por fim. Agora procuro esclarecer neste artigo
como funcionam os Círculos de Mulheres TERAPÊUTICOS, que são aqueles eventos
aonde se oferece alguma prática de Terapia, a mais comum delas é a Terapia em
grupo sob a fundamentação da psicologia junguiana que faz uma releitura dos
arquétipos das deusas como partes da psique feminina, o que credita a esta
prática o status de terapia e não de ritual. Outras práticas terapêuticas podem
ocorrer, como massagens, etc.
A linha que separa a terapia holística da espiritualidade é
tênue, pois a espiritualidade também vê o ser de forma integrativa (holística)
e por isto pode atuar de forma também terapêutica na cura do ser por meio da
fé, no entanto isto não lhe dá o status de terapia no sentido
médico-científico, então para atuar com a Terapia Holística é necessário
possuir seu conhecimento, sua fundamentação necessária, ser um Terapeuta e não
apenas um Espiritualista, embora possa-se ser ambos. No caso da Fitoterapia,
por exemplo, sua aplicação sem base científica pode cair no crime de
Curandeirismo, que consta no Código Penal brasileiro atual, especialmente quando
não se tem o devido cuidado de orientar o paciente que não abandone os seus
tratamentos na medicina tradicional.
A utilização da Ayahuasca (Daime), por exemplo, tem seu uso
regulamentado apenas para utilização religiosa-espiritual, e NÃO POSSUI BASE
CIENTÍFICA PARA USO TERAPÊUTICO, apesar de ser Terapêutica e Holística por meio
da fé e da religiosidade, mas a regulamentação legal veda seu uso enquanto uma
Terapia Holística, portanto esta utilização é considerada ilegal, sem base
científica e pode além de cair no crime de Curandeirismo, também caracterizar exercício ilegal
da profissão de Terapeuta. Ou seja, servir Ayahuasca não faz de você um
terapeuta, servir Ayahuasca não é profissão, não tem base legal para um e nem
outro, portanto acabam aqui as escusas para o comércio ilegal da mesma.
Com o exemplo acima, um dos mais comuns da atualidade,
podemos compreender essa linha tênue entre Terapia e Espiritualidade, que deve
ser observada sempre com bom senso, e é por este motivo também que as Terapias
Holísticas deveriam ter sempre valores mais acessíveis e flexíveis, pois muito
embora possuam certa base científica, a maioria delas possui conexões com
práticas consideradas espirituais, e quando você faz Terapia em um formato de círculo, a própria visão de mundo evocada, circular e não-linear, tem por pressuposto a igualdade, o acolhimento, e não a hierarquia patriarcal que pressupõe rigidez e autoritarismo.
Com relação aos cursos, eu recomendo a todos que querem
aprender Terapia Holística que façam cursos livres, a maioria deles possui um
bom investimento-benefício, mas que também não se limitem às “cadeirinhas”,
pois existe muita coisa a ser estudada empiricamente, autodidata, etc. Mas
por amor, não inventem de fazer Círculo de Mulheres Terapêutico porque você leu um
livro sobre Psicologia Junguiana (Mulheres Que Correm Com Lobos, por exemplo) e
acha que pode fazer para ganhar dinheiro, respeitem o trabalho dos Terapeutas!
Uma nota de rodapé sobre cursos: O capitalismo no ensino é tão forte que as pessoas perderam o direito de serem o que são, um exemplo disso é que antigamente só existiam faculdades de cursos mais tradicionais, se não me engano começaram com Direito e Medicina, então você era artista sem ter feito um curso de Artes, por exemplo, até Freud que foi considerado o “pai da psicanálise”, o era desde antes de a Psicologia existir como curso universitário, FREUD NÃO ERA PSICÓLOGO (era médico neurologista, agora se um médico neurologista quiser ser psicólogo ele vai ter de “voltar para as cadeirinhas” da Universidade e estudar mais 5 anos, salvo as comuns eliminações de matérias), aí de repente houve um “boom” de cursos, surgiram as faculdades particulares, e hoje pra você ser qualquer coisa você precisa pagar e entrar dentro da "caixinha" do sistema como ela te concebe dentro daquela área, e com a popularidade das religiões e cultos modernos, especialmente o Sagrado Feminino (por conta do Feminismo em alta) a gente tá sendo jogada pro mesmo sistema.
Nós que somos Terapeutas por formações nos chamados cursos livres já temos nossa dificuldade de aceitação por parte da sociedade por não termos muitas vezes uma graduação “tradicional”, aí alguém pensa a brilhante ideia de criar um curso universitário abarcando diversas Terapias Holísticas (sim, as mesmas que podemos fazer quantas e quais quisermos em cursos livres), a tal graduação em Naturopatia reconhecida pelo MEC, vocês realmente acham que fizeram isso pensando na gente? Isso é mais um meio de nos forçar a dar muito dinheiro para as mesmas instituições que regulam e ministram os cursos universitários tradicionais dos quais nós “fugimos”, mais uma forma de nos tolher a liberdade de sermos o que somos pelo preço de um título, de um papel. Pensem nisso. E se você é um paciente de Terapia Holística e de alguma maneira discrimina um Terapeuta não graduado ou opta por um profissional apenas porque ele tem a graduação, pense nisso também, pois você está fortalecendo um sistema capitalista, mercenário e opressor de pessoas.
Leia mais artigos da série sobre o Sagrado Feminino:
I. O Culto ao Sagrado Feminino
II. O "Ritual" do Sagrado Feminino - Parte I
II. O "Ritual" do Sagrado Feminino - Parte II
*Em breve a parte III sobre O Sacerdócio no Sagrado Feminino.
I. O Culto ao Sagrado Feminino
II. O "Ritual" do Sagrado Feminino - Parte I
II. O "Ritual" do Sagrado Feminino - Parte II
*Em breve a parte III sobre O Sacerdócio no Sagrado Feminino.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Xamanismo: Perguntas Frequentes 1
Poste aqui nos comentários a sua dúvida e ajude a produzir um artigo Perguntas Frequentes 2.
1. Xamanismo é religião?
Resposta: Não no sentido doutrinário, sistêmico. E sim no sentido de "religare" (re-ligação com o Divino). No aspecto doutrinário existem algumas religiões que podem ser consideradas essencialmente, ou fundamentalmente Xamânicas, como o Santo Daime, a Barquinha e grande parte das Ayahuasqueiras, porque tiveram sua origem a partir de cultos indígenas e caboclos. No entanto, existem também religiões que não se fundamentam ou se originaram do Xamanismo, porém absorveram algumas práticas Xamânicas, estas são a maioria das religiões existentes hoje, podemos citar como exemplo: Umbanda, Hinduísmo, etc.
2. Xamanismo é, então, o culto dos indígenas?
Resposta: Sim, mas não somente deles, dos nativos de todas as regiões, a partir dos primeiros seres humanos e das suas primeiras práticas de devoção e comunhão com o Divino.
3. Todo Xamã/Xamanista consagra Ayahuasca?
Resposta: Não, a Ayahuasca é o resultado da união de duas Plantas de Poder nativas de solo brasileiro, amazônia peruana e proximidades (América Latina), cada região possui suas Plantas de Poder nativas, por exemplo: Cannabis (nativa da região Árabe e Africana), Peyote (nativa da América do Norte) e assim por diante.
4. Todo Xamã/Xamanista consagra ou deve consagrar Enteógenos (Plantas de Poder)?
Resposta: A maioria deles, fica impossível responder por todos em definitivo, mas sei de uma sacerdotisa dita Xamã de origem russa que não consagra nenhuma medicina e só trabalha com tambores, mantras, etc. Porém isto é moderno, pois sabe-se da utilização de enteógenos por parte dos Xamãs russos no passado, ou seja, mesmo que os modernos optem por não consagrar, sua ancestralidade consagrou e fez parte de sua história. Não vou dizer que é extremamente necessário, pois na atualidade existem pessoas trabalhando o Xamanismo sem nenhuma substância expansora de consciência, trabalhando a expansão por meio dos toques de tambor, o que é válido, mas considero extremamente importante para o Xamanista o conhecimento e a experiência com as Plantas de Poder, mesmo que após este opte por não utilizá-las em suas práticas.
5. Quem consagra Ayahuasca é Xamã?
Resposta: Não, é Xamanista, mas apenas se este faz desta consagração um hábito religioso e não algo esporádico, para se considerar Xamanista é preciso que os ritos façam parte de sua fé e sua vivência no dia-a-dia. Já o Xamã é uma figura excepcional dotada de poderes e mediunidade, e que passou por ritos iniciáticos fortíssimos, um sacerdote dedicado a curas e magias, o que temos hoje em dia (fora do contexto de tribo) são alguns Neo-Xamãs, entretanto a maioria que diz que é, na verdade não o é.
6. Existe curso para se tornar Xamã?
Resposta: Existem cursos que vendem esta ideia, porém não é nem um pouco legítimo haja vista o Xamã ser um escolhido pela própria natureza.
7. O Xamanismo é uma Terapia Holística?
Resposta: Não, algumas de suas práticas servem à modalidades de terapias holísticas, porém o Xamanismo enquanto fenômeno religioso-espiritual não pode ser considerado uma terapia no sentido profissional da palavra, pois é "ato de fé" e suas curas são fundamentadas na fé. No entanto ele é holístico, no sentido de integrativo.
Teve alguma dúvida? Em breve haverão mais textos explicando mais profundamente muitos dos conceitos aqui expressados, aguarde, comente sua dúvida (pois pode ser a de outros leitores), ou me envie um e-mail: vandanashakti@hotmail.com.

1. Xamanismo é religião?
Resposta: Não no sentido doutrinário, sistêmico. E sim no sentido de "religare" (re-ligação com o Divino). No aspecto doutrinário existem algumas religiões que podem ser consideradas essencialmente, ou fundamentalmente Xamânicas, como o Santo Daime, a Barquinha e grande parte das Ayahuasqueiras, porque tiveram sua origem a partir de cultos indígenas e caboclos. No entanto, existem também religiões que não se fundamentam ou se originaram do Xamanismo, porém absorveram algumas práticas Xamânicas, estas são a maioria das religiões existentes hoje, podemos citar como exemplo: Umbanda, Hinduísmo, etc.
2. Xamanismo é, então, o culto dos indígenas?
Resposta: Sim, mas não somente deles, dos nativos de todas as regiões, a partir dos primeiros seres humanos e das suas primeiras práticas de devoção e comunhão com o Divino.
3. Todo Xamã/Xamanista consagra Ayahuasca?
Resposta: Não, a Ayahuasca é o resultado da união de duas Plantas de Poder nativas de solo brasileiro, amazônia peruana e proximidades (América Latina), cada região possui suas Plantas de Poder nativas, por exemplo: Cannabis (nativa da região Árabe e Africana), Peyote (nativa da América do Norte) e assim por diante.
4. Todo Xamã/Xamanista consagra ou deve consagrar Enteógenos (Plantas de Poder)?
Resposta: A maioria deles, fica impossível responder por todos em definitivo, mas sei de uma sacerdotisa dita Xamã de origem russa que não consagra nenhuma medicina e só trabalha com tambores, mantras, etc. Porém isto é moderno, pois sabe-se da utilização de enteógenos por parte dos Xamãs russos no passado, ou seja, mesmo que os modernos optem por não consagrar, sua ancestralidade consagrou e fez parte de sua história. Não vou dizer que é extremamente necessário, pois na atualidade existem pessoas trabalhando o Xamanismo sem nenhuma substância expansora de consciência, trabalhando a expansão por meio dos toques de tambor, o que é válido, mas considero extremamente importante para o Xamanista o conhecimento e a experiência com as Plantas de Poder, mesmo que após este opte por não utilizá-las em suas práticas.
5. Quem consagra Ayahuasca é Xamã?
Resposta: Não, é Xamanista, mas apenas se este faz desta consagração um hábito religioso e não algo esporádico, para se considerar Xamanista é preciso que os ritos façam parte de sua fé e sua vivência no dia-a-dia. Já o Xamã é uma figura excepcional dotada de poderes e mediunidade, e que passou por ritos iniciáticos fortíssimos, um sacerdote dedicado a curas e magias, o que temos hoje em dia (fora do contexto de tribo) são alguns Neo-Xamãs, entretanto a maioria que diz que é, na verdade não o é.
6. Existe curso para se tornar Xamã?
Resposta: Existem cursos que vendem esta ideia, porém não é nem um pouco legítimo haja vista o Xamã ser um escolhido pela própria natureza.
7. O Xamanismo é uma Terapia Holística?
Resposta: Não, algumas de suas práticas servem à modalidades de terapias holísticas, porém o Xamanismo enquanto fenômeno religioso-espiritual não pode ser considerado uma terapia no sentido profissional da palavra, pois é "ato de fé" e suas curas são fundamentadas na fé. No entanto ele é holístico, no sentido de integrativo.
Teve alguma dúvida? Em breve haverão mais textos explicando mais profundamente muitos dos conceitos aqui expressados, aguarde, comente sua dúvida (pois pode ser a de outros leitores), ou me envie um e-mail: vandanashakti@hotmail.com.
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domingo, 15 de janeiro de 2017
Umbandaime
Este texto é informativo, para preencher a carência de material que temos hoje sobre Umbandaime e suas variáveis seitas, não possui a pretensão de impor conceitos ou regras, apenas reflete a minha opinião pessoal dentro da minha experiência e estudos, a quem possa servir. Saravá!
Assim como a religião denominada Umbanda é relativamente nova, é também a doutrina do Santo Daime, esta última é ainda um pouco mais recente, igualmente sincrética, mas que difere em muitos e diversos aspectos. No entanto, com o passar do tempo a doutrina do Santo Daime que já se auto proclamava Espírita desde o seu início por Mestre Irineu, passou a “absorver” as práticas Umbandistas a seu culto (em algumas igrejas do Santo Daime e em linhas coligadas, até mesmo nas independentes), dando origem ao então contemporâneo termo Umbandaime, usado de forma genérica para qualificar os rituais que unem a consagração da Sagrada Bebida com práticas Umbandistas e de terreiro, sem que haja ainda uma padronização de culto e de liturgia.
Especula-se ter sido A Barquinha, a primeira religião/seita “daimista”
a utilizar-se das práticas mediúnicas voltadas às linhas de Umbanda/Candomblé e
Espiritismo, a mesma se mantém intimista com pouco acesso às suas formas de
culto e ritual para não frequentadores. Entretanto, existe um bom apanhado de
material universitário para estudo não somente d’A Barquinha, mas também da
união Daime-Umbanda em geral que você pode encontrar pesquisando no Google.
Nos ritos tradicionais do Santo Daime já existem rituais
chamados de “mesa aberta”, ocasião em que é permitida a manifestação mediúnica,
chamada popularmente entre os fiéis da religião de “atuação” ou “aparelhamento”,
sem necessariamente fundamentar todo o ritual numa gira de terreiro, estes foram
adicionados ao culto pela intervenção do sucessor de Mestre Irineu, o Padrinho
Sebastião. E posteriormente pela influência de Madrinha Baixinha, como é revelado
nas literaturas, implantou-se relativamente dentro da doutrina o ritual que seria chamado de
Umbandaime, porém este ritual nunca fora acrescentado nos calendários oficiais
pela maioria das igrejas e nem mesmo é dada muita atenção a esta prática, que é
até mesmo rejeitada por igrejas mais ortodoxas.
Apesar da ainda tímida inserção no culto, o problema maior
se mostra nas chamadas “linhas independentes” ayahuasqueiras, que fazem rituais
modernos com o uso da bebida, além da problemática com a própria religião do
Santo Daime que vêm se esquecendo do princípio da Caridade Espiritual e
cobrando pelos trabalhos a contragosto com o que fora ensinado por seus Mestres
precursores, estes novos núcleos que não seguem nenhuma doutrina específica e
geralmente se auto denominam Universalistas ou Xamânicos, têm praticado seus
rituais com chamadas de Umbanda e cobrado dos visitantes um valor de
contribuição para a participação, valor este que varia de R$ 40,00 a R$ 100,00
por pessoa e geralmente são taxativos. Mas Umbanda não “é a manifestação do
espírito para a Caridade”, conforme ditou o Caboclo das 7 Encruzilhadas na
ocasião da anunciação da Umbanda? Então.
O pior é o fato de que estas igrejas de linhas independentes
têm pouca ou nenhuma referência de ritualística e geralmente é dirigida por pessoas
que não são sacerdotes de Umbanda e nem iniciados na doutrina do Santo Daime
pelo rito de Fardamento. E às vezes têm conhecimentos rasos sobre a prática
umbandista, e em alguns casos nem mesmo sobre mediunidade os têm, o que coloca em
risco o equilíbrio espiritual dos participantes, especialmente daqueles que
possuem mediunidade não desenvolvida ou recém descoberta (experiência própria).
Umbanda não é só chamar os espíritos, aliás, chamar
espíritos é algo um tanto perigoso para alguém que não sabe com o que pode
estar lidando e/ou não segue preceitos mínimos para realizar o ritual como
abstenção de carnes, sexo, álcool, serenar a mente, evitar discussões, etc.
Lembrando que é exigido muito mais de um dirigente do que de uma pessoa que
está indo pela primeira vez a um ritual, pois este estará no papel de
sustentador e condutor de todas as pessoas que podem ou não estarem “limpas”
energeticamente (e geralmente não estão), o dirigente precisa de uma firmeza
maior, que somente possui aquele que realmente sabe o que está fazendo.
Não é que o dirigente precise ser um santo, mas o que vem ocorrendo nos últimos tempos é uma banalização do papel da autoridade espiritual, em tempos atuais de uma sociedade extremamente sem empatia, em que vemos centenas de violências e desequilíbrios nas pessoas, faz-se necessário uma "apuração" para aquele que deseja servir levando uma casa, um Ponto de Luz, assim como faz-se necessária a existência de doutrina, de certa rigidez até. Existem pessoas capazes de se conduzirem por si próprias? Existem, mas a maioria delas ao menos passou algum tempo aprendendo ou estudando de alguma forma, com alguém que sabia mais em algum lugar, ou mesmo que seja nos livros (com uma mínima experiência prática, pelo menos, né?).
A ansiedade do modo de vida capitalista tem feito com que pessoas despreparadas abram trabalhos espirituais com o intuito principal de ganhar dinheiro ou status com o "modismo Nova Era". Se conduzir a si próprio pode não ser tão difícil, mas e conduzir aos outros? Supondo que você dá conta de você, e quando a sua responsabilidade se estende a um público de 20, 100, 300? Vamos refletir nas motivações, e estudar, e trabalhar, e trabalhar para servir com Amor e não com ansiedade, não com desequilíbrio, não com vaidade... Axé!
Teve alguma dúvida? Em breve haverão mais textos explicando mais profundamente muitos dos conceitos aqui expressados, aguarde, comente sua dúvida (pois pode ser a de outros leitores), ou me envie um e-mail: vandanashakti@hotmail.com.
Não é que o dirigente precise ser um santo, mas o que vem ocorrendo nos últimos tempos é uma banalização do papel da autoridade espiritual, em tempos atuais de uma sociedade extremamente sem empatia, em que vemos centenas de violências e desequilíbrios nas pessoas, faz-se necessário uma "apuração" para aquele que deseja servir levando uma casa, um Ponto de Luz, assim como faz-se necessária a existência de doutrina, de certa rigidez até. Existem pessoas capazes de se conduzirem por si próprias? Existem, mas a maioria delas ao menos passou algum tempo aprendendo ou estudando de alguma forma, com alguém que sabia mais em algum lugar, ou mesmo que seja nos livros (com uma mínima experiência prática, pelo menos, né?).
A ansiedade do modo de vida capitalista tem feito com que pessoas despreparadas abram trabalhos espirituais com o intuito principal de ganhar dinheiro ou status com o "modismo Nova Era". Se conduzir a si próprio pode não ser tão difícil, mas e conduzir aos outros? Supondo que você dá conta de você, e quando a sua responsabilidade se estende a um público de 20, 100, 300? Vamos refletir nas motivações, e estudar, e trabalhar, e trabalhar para servir com Amor e não com ansiedade, não com desequilíbrio, não com vaidade... Axé!
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terça-feira, 25 de outubro de 2016
III. Sagrado Xamanismo
O XAMANISMO ENQUANTO CULTO ESPIRITUAL
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| Xamanismo não é religioso no sentido doutrinário, mas o é no sentido "religare" (religação com o Sagrado), e é espiritual, quanto a isso não se discute. |
Decidi passar a utilizar o conceito de Sagrado Xamanismo a tudo o que se referisse ao Xamanismo de forma religiosa-espiritual, para evitar confusões com outras conotações com que ele vem sendo difundido na atualidade.
Este conceito, por sua vez, traz a consciência do Xamanismo como uma prática SAGRADA, ou seja, religiosa-espiritual, Xamanismo não é Terapia (embora aja também de forma terapêutica, assim como outras religiões e cultos) e nem deve ser mercantilizado. Assim como fazem nossos irmãos de centros de Umbanda e Kardecistas prestamos atendimentos de cura e amparo espiritual a nossa comunidade, assim também como os Pajés atendem os irmãos de suas respectivas tribos.
O Xamanista é um curador, um professor e amigo que deve ter consigo a responsabilidade de utilizar seus dons em benefício de sua comunidade, especialmente aqueles que possuem intenção de assumirem um caminho de medicina (sacerdócio de Xamanismo), assim como faziam os nossos ancestrais.
Através de práticas consideradas Xamânicas como rezos, benzimentos, passes, limpezas e descarregos utilizando-se de ervas, defumações, danças, cantos e rituais anímicos e cerimoniais magísticos o Xamanista, ou o Xamã presta seu atendimento aos irmãos de sua comunidade que buscam auxílio espiritual, emocional, medicinal e até mesmo para seu próprio desenvolvimento como pessoa no dia-a-dia ou dentro do caminho do Xamanismo.
Muitos "centros" hoje que se auto denominam Xamânicos atuam de forma deslegitima estabelecendo preços muitas vezes até mesmo exorbitantes para a execução de seus serviços que deveriam ser serviços exclusivamente espirituais, mas o problema que já elitiza uma cultura que possui como princípios a simplicidade, a humildade e a irmandade, e exclui socialmente as classes mais baixas, ainda incorre no risco de apropriação da cultura indígena e ancestral para obter lucros, jogando as minorias étnicas para escanteio, que acabam "colonizadas pelo poder econômico" como avaliou Cosmo de Souza, Daimista e Procurador do Estado do Acre na última Conferência Mundial da Ayahuasca realizada recentemente.
O atual desequilíbrio econômico em torno do Xamanismo vai além dos "centros" servidores de Ayahuasca/Daime, mas também abrange a outras linhas de trabalho que dão atendimentos com técnicas de pajelança, benzimentos e outras cobrando dos atendidos. Os próprios líderes espirituais indígenas de algumas regiões têm sido vítimas do sistema capitalista fazendo parte muitas vezes desses "comércios" disfarçados, com o objetivo de obterem auxílio econômico para seu povo que geralmente é carente, e até mesmo para enriquecer, esquecendo do seu povo, como já houveram relatos por aí. Por este motivo, é essencial também aos que praticam o Xamanismo dentro dos princípios da caridade espiritual que participem de políticas e outras atividades voluntárias a fim de prestarem apoio às comunidades de povos indígenas, que são os verdadeiros detentores das sabedorias antigas.
É sabido que em tempos muito remotos onde prevalecia o escambo (troca) e não a moeda em si, era comum que os Pajés/Xamãs recebessem presentes de seus atendidos, como tabaco, mantos, ervas, pedras e outros elementos, e também alimentos e vestimentas para sua própria subsistência, uma vez que estes não possuíam outro ofício de vida, senão o de curar e amparar, ao qual dedicam a totalidade de suas vidas, como os monges, que vivem de mendicância. Hoje, além de não haver mais sistema de escambo (o que acabava dando às coisas valores mais justos) e nossa economia ser totalmente capitalista e nada meritocrática, ou seja, ninguém recebe proporcionalmente ao trabalho que executa, as pessoas que estão na dirigência de muitos núcleos auto denominados Xamânicos querem viver vidas normais com seus confortos e luxos, mais do que mantendo suas casas "espirituais" (ou terapêuticas) recebendo um "salário" que provém do sacrifício daqueles que precisam de amparo, que geralmente são pessoas que chegam quase sempre debilitadas, frágeis e em desequilíbrio e encontram nesses espaços a última esperança nos quais depositam muitas vezes um dinheiro que não possuem realmente, vulgarmente chamados de "contribuição", "energia de troca" e outros tipos de disfarces que não têm nada de espontâneo e são taxativos em sua cobrança. Assim o irmão que chega ao Xamanismo cai na mesma armadilha em que caem fiéis de grandes Igrejas Evangélicas que aliciam mentalmente as pessoas em sua fragilidade em troca de dinheiro, o que deveria ser considerado um crime de extorsão, já que é sim um ato de violência (psicológica) se valer do desespero de um irmão para obter lucro.
Como resultado há ainda uma publicidade cruel em cima do modismo "Nova Era" que demanda uma "overdose" de cursos com caráter de formação nas tradições Xamânicas, colocando em postos de confiança pessoas muitas vezes despreparadas para lidar com problemas psíquicos e espirituais que veem nesta demanda uma oportunidade de ganhar dinheiro e acabam colocando a vida e a sanidade mental dos mais fragilizados em risco.
Não existe curso que ofereça a uma pessoa o dom de uma missão de vida, isto é algo que vêm de dentro para fora, e as pessoas do meio urbano, principalmente, que vivem na ansiedade capitalista não conseguem acompanhar o "tempo" da espiritualidade, que nos desperta para os nossos dons conforme o nosso merecimento. O homem capitalista pensa que tudo pode comprar com dinheiro.
Xamanismo não é religioso no sentido doutrinário, mas o é no sentido "religare" (religação com o Sagrado), e é espiritual, quanto a isso não se discute. Há ainda uma regulamentação legal para o uso do sacramento Ayahuasca estritamente religioso, que proíbe a cobrança e o comércio do atendimento com a bebida, que infelizmente têm sido ignorada e omitida de forma escancarada por muitos que se dizem Mestres, Padrinhos e Dirigentes. Isto é pouco falado nas mídias e o assunto tem sido levantado "a passos de tartaruga", por isso nem todas as pessoas possuem conhecimento de tal regulamentação.
Segue disposições sobre comércio, sustentabilidade, turismo, publicidade, uso terapêutico e organização dos "centros", respectivamente. Recomendo para os que se interessam a leitura completa da regulamentação no link mais adiante, ou pelo menos as partes em negrito que tratam do tema em foco.
"IV.II - COMERCIALIZAÇÃO
25. O GMT reconhece o caráter religioso de todos os atos que envolvem a Ayahuasca, desde a coleta das plantas e seu preparo, até seu armazenamento e ministração, de modo que seu praticante de tudo participa com a convicção de que pratica ato de fé e não de comércio. Daí decorre que o plantio, o preparo e a ministração com o fim de auferir lucro é incompatível com o uso religioso que as entidades reconhecem como legítimo e responsável.
26. Quem vende Ayahuasca não pratica ato de fé, mas de comércio, o que contradiz e avilta a legitimidade do uso tradicional consagrado pelas entidades religiosas.
27. A vedação da comercialização da Ayahuasca não se confunde com seu custeio, com pagamento das despesas que envolvem a coleta das plantas, seu transporte e o preparo. Tais custos de manutenção, conforme seja o seu modo de organização estatutária, são suportados pela comunidade usuária. E é evidente, também, que a produção da Ayahuasca tem um custo, que pode variar de acordo com a região que a produz, a quantidade de adeptos, a maior ou menor facilidade com que se adquire a matéria prima (cipó e folha), se se trata de plantio da própria entidade ou se as plantas são obtidas na floresta nativa, e tantas outras variáveis.
28. Historicamente, porém, de acordo com a experiência das entidades religiosas chamadas a compor o Grupo Multidisciplinar de Trabalho, esse custo é partilhado no seio da instituição por meio das contribuições dos membros de cada entidade. Os sócios respondem pelas despesas de manutenção da organização religiosa, nas quais estão incluídos os gastos com a produção da Ayahuasca, com prestação de contas regular.
29. O uso religioso responsável na produção da Ayahuasca é delineado a partir da constatação das práticas das entidades: a) cultivar as plantas e preparar a Ayahuasca, em princípio, para seu próprio consumo; b) buscar a sustentabilidade na produção das espécies; e, c) quando não possuir cultivo próprio e nenhuma forma de obtenção da matéria prima na floresta nativa - sem prejuízo de buscar a auto-suficiência em prazo razoável - nada obsta obter o chá mediante custeio das despesas tão somente, evitando-se que pessoas, grupos ou entidades se dediquem, com exclusividade ou majoritariamente, ao fornecimento a terceiros.
IV.III - SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO DA AYAHUASCA
30. A cultura do uso religioso da Ayahuasca, por se tratar de fé baseada em bebida extraída de plantas nativas da Floresta Amazônica, pressupõe responsabilidade ambiental na extração das espécies. As entidades religiosas devem buscar a auto-sustentabilidade na produção da bebida, cultivando o seu próprio plantio.
IV.IV - TURISMO
31. Turismo, como atividade comercial, deve ser evitado pelas entidades, que por se constituírem em instituições religiosas, não devem se orientar pela obtenção de lucro, principalmente decorrente da exploração dos efeitos da bebida.
32. A Constituição Federal garante o livre exercício dos cultos religiosos, que tem como conseqüência o direito à propagação da fé através do intercâmbio legitimo de seus membros. Neste sentido todos têm direito de professar a sua fé livremente e de promover eventos dentro dos limites legais estabelecidos. O que se quer evitar é que uma prática religiosa responsável, séria, legitimamente reconhecida pelo Estado, venha a se transformar, por força do uso descomprometido com princípios éticos, em mercantilismo de substância psicoativa, enriquecendo pessoas ou grupos, que encontram no argumento da fé apenas o escudo para práticas inadequadas.
IV.V - DIFUSÃO DAS INFORMAÇÕES
33. A publicidade da Ayahuasca também tem sido motivo de deturpações e abusos, notadamente na Internet. Observa-se, principalmente neste meio de comunicação, o oferecimento de toda espécie de cursos e oficinas remuneradas, cujo elemento central é o uso da Ayahuasca associado a promessas de experiências transformadoras descomprometidas com o ritual religioso.
34. A partir das experiências das entidades e de suas práticas rituais, verifica-se que o uso ritual responsável é incompatível com a publicidade e a oferta de promessas de curas milagrosas, de transformações pessoais arrebatadoras e com a indução das pessoas a acreditarem que a Ayahuasca é o remédio para todos os males. É consenso no GMT que quem faz uso religioso responsável não divulga informações que possam induzir as pessoas a terem uma imagem fantasiosa da Ayahuasca e trata do tema com discrição, sem fazer alardes dos efeitos da substância.
IV.VI - USO TERAPÊUTICO
35. Para fins deste relatório "terapia" é compreendida como atividade ou processo destinado à cura, manutenção ou desenvolvimento da saúde, que leve em conta princípios éticos científicos.
36. Tradicionalmente, algumas linhas possuem trabalhos de cura em que se faz uso da Ayahuasca, inseridos dentro do contexto da fé. O uso terapêutico que tradicionalmente se atribui à Ayahuasca dentro dos rituais religiosos não é terapia no sentido acima definido, constitui-se em ato de fé e, assim sendo, ao Estado não cabe intervir na conduta de pessoas, grupos ou entidades que fazem esse uso da bebida, em contexto estritamente religioso. Em outra condição se encontram aqueles que se utilizam da bebida fora do contexto religioso. Isto nada tem que ver com uso religioso, e tal prática não está reconhecida como legítima pelo CONAD, que se limitou a autorizar o uso da substância em rituais religiosos.
37. A utilização terapêutica da Ayahuasca em atividade privativa de profissão regulamentada por lei dependerá da habilitação profissional e respaldo em pesquisas científicas, pois de outra forma haverá exercício ilegal de profissão ou prática profissional temerária.
38. Qualquer prática que implique utilização de Ayahuasca com fins estritamente terapêuticos, quer seja da substância exclusivamente, quer seja de sua associação com outras substâncias ou práticas terapêuticas, deve ser vedada, até que se comprove sua eficiência por meio de pesquisas científicas realizadas por centros de pesquisa vinculados a instituições acadêmicas, obedecendo às metodologias científicas. Desse modo, o reconhecimento da legitimidade do uso terapêutico da Ayahuasca somente se dará após a conclusão de pesquisas que a comprovem.
39. Com fundamento nos relatos dos representantes das entidades usuárias, verificou-se que as curas e soluções de problemas pessoais devem ser compreendidas no mesmo contexto religioso das demais religiões: enquanto atos de fé, sem relação necessária de causa e efeito entre uso da Ayahuasca e cura ou soluções de problemas.
IV.VI - ORGANIZAÇÃO DAS ENTIDADES
40. O crescimento do uso da Ayahuasca e a facilidade com que se pode comprar a bebida de pessoas que a produzem sem compromisso com a fé têm levado ao surgimento de novas entidades, que não possuem experiência no lidar com a bebida e seus efeitos, assim como fazem mau uso da Ayahuasca, associando-a a práticas que nada têm a ver com religião. O uso ritual caracterizado pela busca de uma identidade religiosa se diferencia do uso meramente recreativo.
41. O uso religioso responsável da Ayahuasca pressupõe a presença de pessoas experientes, que saibam lidar com os diversos aspectos que envolvem essa prática, a saber: capacidade de identificar as espécies vegetais e de preparar a bebida, reconhecer o momento adequado de servi-la, discernir as pessoas a quem não se recomenda o uso, além de todos os aspectos ligados ao uso ritualístico, conforme sua orientação espiritual.
42. Embora se reconheça o ato de fé solitário e isolado, usualmente a prática religiosa se desenvolve coletivamente. É recomendável que os grupos constituam-se em organizações formais, com personalidade jurídica, consolidando a ideia de responsabilidade, identidade e projeção social, que possibilite aos usuários a prática religiosa em ambiente de confiança."
Leia a Resolução completa do CONAD Nº1, de 25 de Janeiro de 2010 sobre Normas e Procedimentos compatíveis com o uso Religioso da Ayahuasca:
ftp://ftp.saude.sp.gov.br/ftpsessp/bibliote/informe_eletronico/2010/iels.jan.10/iels16/U_RS-CONAD-1_250110.pdf
* Uma observação importante sobre a resolução é que quando se trata do "custo... partilhado no seio da instituição por meio das contribuições dos membros de cada entidade" refere-se não aos visitantes ou assistidos, mas aos membros que integram a entidade religiosa, logo, os que assumem a missão em conjunto dos dirigentes, entretanto, ainda assim é requerida a PRESTAÇÃO DE CONTAS regular pelas entidades.
Apesar disso tudo, não se tratando mais da Ayahuasca, ainda assim existe uma pequena "parte" do Xamanismo enquanto um fenômeno social (e não como culto/seita religiosa) que poderia ser utilizada num contexto profissional terapêutico, mas falaremos sobre isto mais adiante.
Saiba mais sobre o Xamanismo lendo a parte I e II:
I. Introdução Geral ao Xamanismo
II. Xamanismo e Bruxaria
Teve alguma dúvida? Em breve haverão mais textos explicando mais profundamente muitos dos conceitos aqui expressados, aguarde, comente sua dúvida (pois pode ser a de outros leitores), ou me envie um e-mail: vandanashakti@hotmail.com.
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