sexta-feira, 21 de abril de 2017

II. O "Ritual" do Sagrado Feminino - Parte III

Vamos continuar nossos estudos sobre os Rituais dos Círculos de Mulheres?

Hoje falaremos sobre a questão da gratuidade e da capacitação para a condução de um Círculo.


Por que tem que ser gratuito?

Voltando ao início do texto, lembremos do que é um ritual, ou seja, uma cerimônia mágico-religiosa, isto por si só basicamente explica o motivo dos rituais serem gratuitos. É claro que dentro de um coven, ou círculo fechado, os membros fixos podem trabalhar cooperativamente para manterem o trabalho juntos, já que todas possuem uma responsabilidade compartilhada pelos trabalhos. Mas, por outro lado, uma pessoa que sozinha assume a responsabilidade de conduzir um trabalho espiritual (seja ele qual for) possui a responsabilidade como que de uma sacerdotisa (isto quando não é de fato uma sacerdotisa), não é porque saímos dos conceitos patriarcais de hierarquia linear que o sacerdócio perde seu sentido, ele ainda deve existir, mas de maneira mais flexível acompanhando a fluidez do que é o Feminino enquanto uma energia primordial que permeia a tudo no Universo.

Muitas de vocês irão encontrar círculos de mulheres pagos, e também cursos que prometem a capacitação ou formação para “Sacerdotisas” ou “Facilitadoras de Círculos”.

Sobre isto, inicialmente devo dizer taxativamente que NEM TODO CÍRCULO DE MULHERES É UM CÍRCULO “SAGRADO”, não levem a mal, é a realidade. Existem Círculos de Mulheres que atuam sim na cura das mulheres, mas de forma profissional e TERAPÊUTICA, ou seja, eles trabalham o Feminino de forma não religiosa e não estritamente espiritual, a exemplo temos muitos círculos trabalhando os arquétipos das deusas dentro da psicologia junguiana, como antes já dito aqui em outros textos, está errado? Não, de maneira alguma, errado é vender o ritual, errado é vender o “Sagrado”, Terapia é profissão e deve ser remunerada e valorizada.


Quem pode fazer? - Cursos de Formação

Agora quanto aos cursos de formação que prometem iniciações e capacitações, repito o que tenho dito nos círculos e em grupos quando esta questão é frequentemente levantada. A nossa sociedade como um todo precisa desconstruir a ideia de que você só pode se capacitar para algo em um curso que te dê um diploma ou uma instituição que te diga que você é o que você é. Isso sempre afetou as áreas profissionais (especialmente as mais tradicionais) e agora, por conta do capitalismo, afeta até nossa espiritualidade, porque muitos cursos se tornaram um meio de comércio, a questão é: você não “precisa” de um curso para se tornar uma sacerdotisa, uma facilitadora de círculos, etc, mas se você quiser existem cursos que podem ajudar na parte de estudos e vivências, no entanto, esses cursos não dão a ninguém o “real” título espiritual disso ou daquilo, até porque cada pessoa possui um aproveitamento diferente, duas pessoas podem fazer o mesmíssimo curso e uma pode ter um lindo despertar e outra pode ter simplesmente aproveitado somente o conteúdo, porque o despertar, o florescer espiritual não tem prazo, não tem método, não tem receita de bolo, é particular de cada um desde que o mundo é mundo, basta apenas que as pessoas se abram e realmente desconstruam essa ideia de que "eu sou menos capaz porque não sou formada no curso lá da “gringa” que diz que você é tal coisa ou não".

Antigamente existiam as escolas iniciáticas das mais diversas tradições místicas e espirituais, mas tudo era completamente diferente, era um outro tempo, uma pessoa nascia e desde criança era mandada a um templo aprender com mestres e mestras que dedicavam toda a sua vida a isto, muitos eram celibatários, renunciantes, e ali sim você poderia dizer que havia uma ordem e no fim a pessoa receberia uma “iniciação” verdadeira, mas hoje isso é cada vez mais raro, primeiramente porque ninguém quer renunciar a nada, e segundo porque TODOS querem algo em troca, ninguém quer mais a responsabilidade de um verdadeiro sacerdócio, de receber pessoas, cuidar, orientar, ensinar e viver integralmente o ofício. Então se perdeu o conceito de iniciação na era moderna, isso ao meu ver, não que não exista, eu até acho que exista, mas é bem raro de ser encontrado.

Eu gostaria de dizer também, complementando tudo o que já foi dito sobre os cursos, que considero justo um valor simbólico colaborativo pela transmissão de saberes (simbólico colaborativo de 1000 reais não vale), porque estamos longe daquele ideal do Sacerdócio do passado, apesar de que se a transmissão for por meio de um Sacerdócio eu acredito que deve ser gratuito sim e apenas com contribuição/doação consciente por parte da pessoa interessada SE ela quiser e puder, mas quando falamos de ensinar algo que foi estudado, organizado e que despendeu o tempo de uma pessoa que não é um Sacerdote e leva uma vida comum, mas que gosta de se dedicar a espiritualidade eu não vejo mal nenhum em propor esta “troca”, desde que não se torne um comércio capitalista (visando lucro), mas sim feito por prazer, de alguém que compreende que este é um saber espiritual, e desde que não haja o monopólio do saber, ou seja, você pode fazer um curso de benzimento e pagar por ele, mas isso não desmerece e nem “incapacita” aquelas que aprendem de forma espontânea, autodidata e especialmente aquelas que aprendem por tradição familiar. Um dos absurdos que mais vemos é uma pessoa usar de um título que é vendido por meio de um curso “iniciatório” para dizer que ela é a única capacitada a exercer tal prática (ex.: Benção do Útero, ou Womb Blessing com o título de Moon Mother, Goddess Blessing ou Benção da Deusa com o título de Blesser), pensem bem, usar o nome “Benção do Útero”, “Benção da Deusa” ou qualquer tipo de benzimento de forma exclusivista não seria uma apropriação indevida de saberes ancestrais, que são patrimônios imateriais e universais da humanidade? Isso é nosso, é visceral, não pertence a ninguém que tente se apropriar.

Então, por fim, concluo que o sacerdócio dentro do Caminho da Deusa, ou do Sagrado Feminino é algo bem mais simples do que se espera, até por a mulher ser naturalmente intuitiva, mas quero deixar para aprofundar neste assunto em um texto mais específico, o que podemos dizer de forma geral é que todas podem conduzir círculos, todas as que sentirem O Chamado da Deusa, e daí o seu sacerdócio pode ser dentro de um coven, de uma ordem iniciática ou não, ele também pode ser solitário, intuitivo e espontâneo, cada ser é um Universo e cada caminho, único. Ahá!

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